Autor: francisaguiar
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Vazão?
Primeiro não é nada. Depois é um desconforto. Passa disso à saliência. Da cor natural, torna-se arroxeado. Cresce sem que você alimente. Incomoda, porque agora já dói. Você tenta rompê-lo antes de seu momento, mas em vão. Inflama. Então vaza, pus e sangue. E vem um alívio, vem um descanso. Assim me parece o verso,…
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Na calada, noite
Contexto: em um lampejo, entardeço quando quero. Consigo amanhecer sem cismas. Faço chover no meu céu, bastam café e a persiana cerrada. Esqueço de que o sol está lá, sozinho, sem uma nuvem, fingindo que todas as coisas são azuis. Penso: nuvens. Elas chegam. Posso simular o vento, controlo meu corpo, não transpiro bicas. Conflito: mas, quando é para anoitecer,…
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True color
Hoje, quando a tarde cedeu relutante lugar à noite, ele viu uma cor que não existia. Refletida na parede do corredor de quartos, a cor que não existia se espalhava baixa, tomava conta do pequeno espaço ao derredor, que era afinal tudo à sua volta: um corredor de quatro portas. Lembrou um desmaio – perder…
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Expressão bilíngue
Alguma coisa urgia em ir-se dele. Não sabia o que era. Voltara de uma longa conversa, semanalmente falava sobre tudo, ouvia sobre ele, sobre as coisas. Sobre coisas sobre ele, também. Mas alguma coisa desejava revirar, uma espécie de avesso. Pensou esperma, masturbou-se, e não. Não era. Esperma não é avesso. Pensou vômito, e chegou…
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Há penas, artista.
why-(not)-write-(down)-your-ideas | London | R.Cambusano Avistaram seu cadáver a uma distância imprecisa. Disseram: “é um cadáver”, sentenciando através de espaço e distância imprecisos. Talvez não fosse ainda um cadáver. A marquise de concreto cobria-lhe o corpo que, mesmo exposto, prostrado rígido de costas para a rua, era guardado por ela, um pouco verde-lodo. Chuviscava, com…
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Gárgula
Photo | Francis Aguiar | Indianópolis pardon-one-prisoner-condemned-to-death | London | R.Cambusano chimaera | London | R.Cambusano
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Sinapses
Inter loucos são nos copos de cerveja quente pela metade espalhados nos cantos de pia de balcões que são esquinas porque não saíram porque não quiseram porque não puderam porque havia perigo porque afinal as bestas galopavam a trote livre e além disso dois fumantes tornavam tudo respirável enquanto antes um moço bonito bem mais…
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Ciclos
Às vezes eu olho a Lua Mas é quando ela está enorme, uma prata da casa no céu. Estou lá, por instantes fantásticos. Vejo a espada de São Jorge, sem Dragão. Meu planeta, esqueço do satélite. Hoje, há pouco, surpreendeu-me… Ela, desta, olhou-me minguante. um só olho, amarelado, semicerrado. Eu olhei, desconfiado. Mas não encarei, ressabiado. A…
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Dos que vagam.
Adulto, vi um vaga–lume. Como vaga e lume que é, vagava e lumiava. Lumiava tanto que trouxe viva a infância, de lugares já escuros. Lá na infância, agora escura, era verde quando botava dentro de um vidro, na esperança de que fosse para sempre minha luz verde. Nós acabávamos sem luz, eu e vaga-lume. Mas, não desta vez. Não assim, adulto. Delicadamente,…