Hoje, quando a tarde cedeu relutante lugar à noite, ele viu uma cor que não existia. Refletida na parede do corredor de quartos, a cor que não existia se espalhava baixa, tomava conta do pequeno espaço ao derredor, que era afinal tudo à sua volta: um corredor de quatro portas.

Lembrou um desmaio – perder cores poderia ser perder os sentidos. Apalpou-se, pleno deles. Sacudiu a cabeça, queria garantias. Estava consciente.

Mas a cor que não existia continuava lá. Pode ter durado uns cinco minutos, mas o tempo, ali, também se perdeu e não existiu. Ou, existiu enquanto a cor sobreviveu.

Pensou estar em outro lugar, mas o cachorro, também cismado, dizia que não, os dois enxergavam a cor, que agora existe.

Duvida que conseguirá vê-la de novo, e não há pincéis que possam reproduzi-la. Também não se importa com o nome que ela não tem, porque é uma cor que ele sentiu e ficou nele, lá na região escura e onde o que é mais verde viceja.

Uma cor de tarde resistindo à noite. Não tem denominação.

Uma cor que não existia | Indianópolis | Francis Aguiar

texto de Francis Aguiar | leitura de Ygor Raduy | pintura de Willem de Kooning

real_heraldic_tinctures | London | R.Cambusano

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