Contexto: em um lampejo, entardeço quando quero. Consigo amanhecer sem cismas. Faço chover no meu céu, bastam café e a persiana cerrada. Esqueço de que o sol está lá, sozinho, sem uma nuvem, fingindo que todas as coisas são azuis. Penso: nuvens. Elas chegam. Posso simular o vento, controlo meu corpo, não transpiro bicas. Conflito: mas, quando é para anoitecer, não. Meia dúzia de notas de um corpo piano, e a Noite chega maior, e isso a qualquer hora do dia. Não o lusco-fusco de certas aflições corriqueiras: a Noite é mão enorme que encobre os olhos. Não que seja ruim, mas é possível perder-se um pouco do que é desejo salvar. É só que é Noite, às vezes, em pleno meio dia. E é descabido. Ela: Noite? Quem és tu sem o amante? Sem fumaça de cigarro? Sem barulho de um carro? Sem que é desconcertante? E quem sou eu, sem tudo isso? Sou eu noite? Sou seu vício? Sou a chama ainda tesa, e que do dia inda quer luz? E Tu, como, em Noite, és tão acesa?

Sala, céu e Noite | Indianópolis | Francis Aguiar

special-night-illumination-enclosure | London | R.Cambusano

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texto de Francis Aguiar | leitura de Ygor Raduy