Às vezes eu olho a Lua
Mas é quando ela está enorme, uma prata da casa no céu. 
Estou lá, por instantes fantásticos. Vejo a espada de São Jorge, sem Dragão.

Meu planeta, esqueço do satélite.

Hoje, há pouco, surpreendeu-me…
Ela, desta, olhou-me minguante.
um só olho, amarelado, semicerrado.
Eu olhei, desconfiado. Mas não encarei, ressabiado.

A lua me olhou de volta cínica.
A lua me olhou de volta, doente.
A lua me olhou de olho poente.

Satélite | Indianópolis | Francis Aguiar

 

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Sabe-se que a noite, ou que na noite o emudecido canto – a ti, apenas a ti – que o silenciado canto de onde foste e onde é que te escondeste; sabe-se que sob a capa valiosa abre-se um desacertado leque; que é quando uma desarranjada ode silencia. Que sob a malha pesarosa que o ventre da noite – onde os teus pés, teus ornamentos? – que sob o desacerto se oculta o tormento e sob o tormento se oculta o alinhamento de um arcaico astro. Que sob o consumado lume dantes vosso – onde os teus artelhos, tua voz? – que da fonte recolheste o brilho e através da noite – onde o cheiro acridoce do teu sexo? Sabe-se, ou já não se sabe, ou talvez quem sabe um dia se venha a saber que na noite, que o pesaroso retumbar de um corpo sobre um outro corpo, que é quando esfregas sobre a minha a tua fome, que na noite o sortimento de um famigerado reino se apresenta – e doce, dulcíssimo – o alento de um imaculado coração volta a resfolegar. Por fim, soube-se que não em qualquer noite, mas no centro do centro do centro dessa que é a noite onde tu enfim estás – oh canção, oh desalento – onde talvez estejas tu e a tua voz, sob o lume de um incendiado astro, manipulas tu a haste donde a nervura foi recoberta de carne. E então sem que saibas, alço um voo incerto e cego em direção à noite, a noite, à noite onde tu deverias estar e não estás.

texto | Curitiba | ygor raduy