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Há penas | Indianópolis | Francis Aguiar

why-not-write-down-your-ideas | London | R.Cambusano

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indeed – why not? | Curitiba | ygor raduy

 

Avistaram seu cadáver a uma distância imprecisa. Disseram: “é um cadáver”, sentenciando através de espaço e distância imprecisos. Talvez não fosse ainda um cadáver.

A marquise de concreto cobria-lhe o corpo que, mesmo exposto, prostrado rígido de costas para a rua, era guardado por ela, um pouco verde-lodo.

Chuviscava, com absoluta certeza.

Um estranho puxou seu corpo, a barriga para cima. Estava arroxeado e de olhos estalados. Sem auscultarem-lhe o peito, pressionaram-no com força, três costelas se partiram e sua boca viva ejaculou palavras que precisaram notar, porque foram atingidos nos olhos.

Morreu de ataque, mas sem a sina de Dario. Sem vela, nada que subtrair do corpo, a não ser aquele visco que o próprio corpo esporrou. Nada lhe subtraíram.

Retiram dos olhos a porrada de palavras grudentas, algumas já secas e  agora procuram mãos para duas luvas. Mãos que ostentem, em duas luvas, aquelas palavras gozadas. Luvas cirúrgicas estampadas, que operem cores e textos e, principalmente, desobstruam palavras coaguladas em tantas gentes. 

“Que cubram seu corpo com linho branco, que absorva parte do que foi expelido. Que não limpem o corpo. Que utilizem substância que o mumifique em texto ou corpo morto, insepulto”

Assim um agente determinou. 

delirium tremens | Indianópolis | Francis Aguiar