Alguma coisa urgia em ir-se dele. Não sabia o que era. Voltara de uma longa conversa, semanalmente falava sobre tudo, ouvia sobre ele, sobre as coisas. Sobre coisas sobre ele, também. Mas alguma coisa desejava revirar, uma espécie de avesso.

Pensou esperma, masturbou-se, e não. Não era. Esperma não é avesso.

Pensou vômito, e chegou a provocá-lo: azedo nada. Vômito não é avesso.

Assoou várias vezes o nariz ainda convalescente: seco. Nariz é espontâneo.

Então foi para fora daquele lugar, acendeu um cigarro, colocou uma gata ruiva sobre o colo. Ele não conversava, ela miava. Depois inverteram: ela silenciou e ele miou. Se bem que também ela conversava discordando, ouriçada. Por vezes, dava a impressão de que deixaria a conversa de lado, ensaiava saltar de seu colo, mas ele conseguira envolvê-la, sem qualquer intenção de vitória. Sem segurá-la, o que seria inútil.

Estavam os dois, apenas porque precisavam e podiam.

Ela ouviu todos os seus miados, de todos os tipos. Aspirava a fumaça do cigarro, gata de antigos olhos semicerrados. E agora ela é que chama por ele, que escuta sozinho: é secreto.

Olha os muros, e sente vontade de trepá-los.

Uénl grrrruunmn | Indianópolis | Francis Aguiar

texto de Francis Aguiar | leitura de Ygor Raduy

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feral | Indianópolis | Francis Aguiar

 

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Tigrela em processo de avesso | Indianópolis | Francis Aguiar