Mosaico de cacos de memória (SelfieKing) | Atibaia | Jaime ScatenaMosaico de cacos de memória (SelfieKing) | Atibaia | Jaime Scatena

detached of reality | London | R.Cambusano

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putting pieces together | Curitiba | Y. Raduy

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myself in pieces | Curitiba | Y. Raduy

 

A vida vai arrancando pedaços. Aquele dentre vós que não tiver um pedaço arrancado, que atire a primeira pedra sobre mim. A vida arranca sem que seja possível reaver. Uma vez arrancado o pedaço, é inútil querer reavê-lo. Torna-se um pedaço inútil. Aliás, a vida é mestra quando se trata de arrancar pedaços. “Ó pedaço de mim” – diz o poeta – “Ó metade arrancada de mim”. Há pessoas que não suportam viver quando um pedaço delas é arrancado. Outras continuam vivas, mas apenas como fantasmagorias. Há outras ainda que se alegram mais e mais à medida que os pedaços vão sendo arrancados. Há pessoas que já nascem com pedaços faltando. Dessas devemos ter piedade, pois dos atormentados é o reino dos céus.

A vida vai arrancando pedaços. Há em mim um pedaço que foi arrancado quando eu era ainda ingênuo. A ferida nunca sarou. E o pedaço arrancado continua me aparecendo em sonho. Foi o mais doloroso. Esse pedaço, arrancado em uma época em que eu ainda não sabia que a vida tem esse costume. Eu não sabia o que significa a palavra “violência”. Nem imaginava que pudesse doer tanto. Ainda hoje dói, agora mesmo está doendo. Mas eu cuido da ferida para que ela nunca cicatrize. Se ela cicatrizar, vou ter que reinventar toda minha maneira de ser “uma pessoa”. Eu me acostumei tanto com a dor que imagino que viver sem ela seja uma espécie de vazio. Isso de se acostumar com a dor que o arrancamento do pedaço causa é perigoso. Uma ferida não cicatrizada pode infeccionar e comprometer todo resto que ainda está são.

A vida vai arrancando pedaços. Isso que se chama “uma pessoa” é um ajuntamento de pedaços, às vezes mal costurados, às vezes impossíveis de se encaixar um no outro. Isso que se chama “eu” é uma colagem de pedaços provenientes das mais diversas fontes. O equilíbrio da estrutura é muito precário. Acontece frequentemente de um pequeno pedaço sem importância ser arrancado. Um pedaço que aparentemente não faria falta. Que estava ali apenas como uma peça inútil. Mas por falta dela toda a estrutura desmorona. Há pessoas fortes que nesse caso são corajosas o suficiente para recomeçar todo o trabalho de construção. Outras não têm essa mesma coragem e preferem a morte ou a loucura. Não seria justo chamá-las de pessoas “fracas”. São apenas inábeis quando confrontadas com uma tarefa que excede suas forças. Foram tão custosamente cosendo os pedaços e de repente veem-se frente a um monte de escombros. Eu não sei se seria capaz de aguentar essa visão.

A vida vai arrancando pedaços. Perde-se um aqui, perde-se outro ali, perde-se outro lá. A estrutura vai ficando cheia de buracos. Algumas zonas vão ficando ocas. E é urgente que algo venha logo tapar esses buracos. Senão corre-se o risco de não ser mais “uma pessoa”. São inumeráveis os meios usados para tapar os buracos. Não vou enumerá-los aqui, pois são conhecidos de todos. Aliás, enumerá-los seria falta de pudor da minha parte. Há coisas que devem permanecer secretas. Outras são de domínio público, mas um pacto tácito garante que jamais se fale sobre elas. “Leva o vulto teu” – diz o poeta – “Que a saudade é o revés de um parto.” Agora vou dizer uma coisa importante: isso que se chama “viver” é o talento de ir sempre recompondo a estrutura, de forma que ela possa balançar, mas nunca caia. Isso que se chama “viver” é o dom de saber como reajustar a todo momento a estrutura de modo que os buracos sejam poucos ou ao menos não deem na vista.

A vida vai arrancando pedaços. Agora vou me entregar ao sono para que ao menos em sonho o pedaço que de mim foi arrancado volte a fazer parte. É uma solução passageira. Até porque isso de “solução definitiva” é um delírio. Vou me entregar ao sono para que ele volte a brilhar, e os ornamentos dele voltem a ofuscar minha visão. Para que a luz que dele emanava seja ao menos em sonho também a minha luz. Para que eu possa participar dessa remota luminescência. Vou me entregar ao sono na esperança vã de que amanhã de manhã eu acorde sem nenhum desvão. Sei que acordarei todo esburacado. Mas quem sabe, amanhã de manhã, eu resolva tomar um café na padaria da esquina e me depare com aquele que causou o rasgo. Ele então dirá: “Estou aqui.” E estenderá a mão em minha direção. Eu então indagarei: “Por que me abandonaste?” Ele então dirá: “Faça de mim conforme a tua vontade.” E eu, atordoado, sem saber o que responder, apenas obedecerei.

o pedaço que foi arrancado | Curitiba | Y. Raduy

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Em perspectiva humanamente caleidoscópica a psicodelia ajusta-se, e os pedaços desorganizados são células peristálticas. Animadas, à revelia.

Atávicas, de nós: muitos nós.

Mesmo na ausência de cores.

textos(des)montando | Indianópolis | Francis Aguiar

olivier-valsecchi

Imagem | série “Klecksography”  | Olivier Valsecchi