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O Porto Suspenso

I

Porto suspenso em andaimes
Junto ao mar de ondas encrespadas
Concha aberta, bivalva,
Que revela, dentro, a carne branca,
A matriz da pérola.

Porto com cais de varas fincadas
Areia feita de minério e limalha
Espuma que é o líquido-sêmen
Formador das coisas.

As coisas formadas e palpáveis
Navegam, carne a carne, no mar
E os sargaços bóiam entre chifres
E compridas tubas de metal lanhado.

A cadência das coisas circundantes
É o ritmo de um pulso existente
Como um coração que nesse mar
Lançasse as naus, singrasse ao encontro
Das linhas suspensas sobre o sal
E na arrebentação, abrisse suas coronárias,
Seus vestíbulos.

II

Que as coisas existentes são átomos e nada
E nós mesmos, falantes ou moventes,
Somos nada e átomos – mas singramos, audazes,
Cabeceando no mar dos hemisférios curvos
Abertos os olhos com força e ávidos,
Seguimos com gracejos, festivais, disputas
Como se nada aí nos detivesse ou ofuscasse.

Como se nada nesse mar nos mantivesse
Sob o domínio estrito da terra e das exigências
Da terra, que são muitas e inexoráveis.

Singramos cegos? Cegos ao que nos corrompe
E mudos como as algas dóceis que cobrem
As distâncias, sugadas no vão das correntes.

Somos os dóceis, os que vão e jamais tornam a vir,
Os que engolidos pelas fossas e desmembrados
Pelos cardumes e macerados pela dentição
Dos polvos, das moréias e das anêmonas.

III

Alarde do aracnídeo do peito
Romance das uvas na colheita
Esgarçados os arcos nas colméias
Salpicados os túneis de sangue saboroso e grosso
Partidas as linhas da palma
As mãos plantadas sobre o barro
A alma de espasmos assombrada
E o sangue, saboroso e grosso, desce
E alimenta o ventre e o baixo-ventre
Onde nos consome a fornalha.

Mas nada disso nos concerne ou toca
Pois seguimos como viandantes ao quais
É desconhecido o rumo e o destino da jornada.

Seguimos fagueiros, exibindo penachos,
Empunhando os membros em riste, eréteis,
Como caçadores, orgulhosos da caça valiosa
Ou expedicionários em marcha vigorosa
Em direção ao nada.

IV

A cadência das coisas existentes no tempo
(o corpo, os cães, as árvores, as pedras)
O contínuo aparecer e desaparecer das coisas
Organiza um ritmo secreto, um pulso –
Somos andamento e aparência e espanto
E saltamos, vendados os olhos, as mãos em cruz,
Para o abismo que nos aspira
A máquina do mundo que nos reprocessa.

(Se a carne sucumbe, logo aparece mais carne
E depois disso mais carne que sucumbe e cai,
De um lado a outro, a carne cai e sucumbe, mas nada
Entrava a produção de carne nova que se sobrepõe
E substitui a carne arcaica)

V

Um porto suspenso no mar da lonjura inabitável:
Somos areia e cal e pedrarias, somos alento;
Um porto suspenso na bruma, que mal divisamos
A estatuária de imprecisas formas
E mal sentimos investir na face
O vento salgado que ricocheteia nos muros
E sibila nas frestas do madeirame.

Um porto suspenso é o que somos
Ou somos a neblina que arredonda as coisas
(Somos átomos e nada)
Ou somos lonjura e não sabemos
Ou a noite que recobre tudo
E a tudo acolhe no seu véu.

Um porto suspenso é o que somos
Ou somos a indefinida espera
(e oscilamos entre ser e nada)
E aqui habitamos, no saguão do corpo,
Desconhecidos de nós mesmos
E dos que aqui conosco esperam.

Os corpos brancos, espaçados,
Cada qual em seu invólucro
E sanguinolenta cápsula – aqui pairamos,
Como esfinges inscientes do enigma
Ou como máscaras às quais falta o rosto,
Aqui lidamos com a vida em feixes
E a cada feixe decomposto suspiramos
E a cada suspiro empalidecemos.

photo, reading and text | Curitiba | ygor raduy

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