Pequena Canção para um Ele

1. Ele, que das manhãs surgia com um alto e luminoso facho– ele – é ele o objeto do canto, que das manhãs emergia coroado – ele – é dele o canto e dele todas as palavras do canto, que da manhã transfigurada erguia-se e no mesmo momento em que se erguia, erguia-se também a manhã. Na borda límpida da manhã, na borda orgíaca, detinha ele todas as linhas de força. Era dele a perspectiva e a distância, assim como dele partiam, graduados, todos os sinais que a manhã mesma exigia para si. Era dele a sonoridade e o ritmo da pulsação, era dele a variedade de entes que a manhã ia lenta e dadivosamente descerrando, era dele o chão onde se espraiava a erva e era ele mesmo a erva que a manhã umedecia de orvalho. Ligado a ele, o centro quente do coração da manhã irrompia e mais que isso: o centro plenipotente do mesmo coração era vazado e se abria nas muitas reentrâncias que a manhã ao redor dele ia tecendo.

2. Este é o canto que como uma flecha voa em direção a ele – ele – o objeto santíssimo, rodeado de escarpas – ele – o objeto sísmico que rodeado de rochas farpadas – ele – que do ventre embaciado da manhã apresentava-se, ele era o cordeiro sacrificado para que pudesse aparecer a vida. Mas a manhã que era festa e vertigem girava ao redor dele. Mas ele era o núcleo através do qual era possível ver a luz.

3. Donde a estrutura da manhã emergia contraposta à estrutura dele, e cada um deles – ele, a manhã – organizava ao redor de si um mundo próprio. Se as formações de astros ao redor dele restituídas giravam, se a incontável gama de sóis ao redor dele tecia curiosos arcos, isso acontecia porque no interior da manhã ele sabia como manejar os elementos. Esse é o canto cujo único escopo não é, como se poderia imaginar, investigar os estatutos dele e da manhã e sim ser ele próprio o sucedâneo, o reflexo, o instantâneo onde a imagem dele e da manhã ressurgem em festa de transfiguração.

[ Lamento ]

Eu sem ti sou apenas um risco, um rasgo, um cisco. Eu – esse objeto funesto, sem ti sou apenas um misto de pó e desconsolo. Pelo amor de Deus, aonde foste? Responde, que o teu silêncio dói em mim feito uma chaga, que aquele que vejo no caminho não és tu, é um outro, que nem as ilhargas contraídas sobre as minha são mais tuas, são de um outro, que nem o rosto que vejo no espelho sou mais eu. Eu – esse objeto faltante, responde pelo amor de Deus onde é que enfiaste o teu brilho, que daqui onde estou não consigo divisar o mínimo resquício. Tu, que eras a única chance que eu tinha de ascender a ti. E agora vou em linha descendente em direção ao fosso onde sem ti existe apenas um catre de metal. Eu, esse esboço de vulto, esse halo de vazio. É tão difícil caminhar aqui, o chão é pedregoso, as coisas todas perderam contornos, o céu é de um vermelho que promete morte. E agora desço em linha vertical em direção à morte. Eu amo a morte.  Mas é também uma morte sem ti, é um apagar-se sem ti, um dissolver-se sem que as tuas flores, um deslizar lento em direção ao não, um baixar, mergulhar, submergir sem ti no estéril continente de onde nenhum vulto volta, onde nem o susto de permanecer sem ti subsiste, nem resiste o surdo apelo que esse texto lança em direção a ti.

4. Como então lícito surgia – ele – que das amarras do ar se desprendia, como surgia tímido de dentro de suas própria comportas – ele – que surgia mínimo como se fosse um quase nada a surgir. Mas a manhã lançava os raios, e a armadura dele crescia sob os brasões da manhã, e a mesma manhã surgia nítida – ele – e ele e a manhã surgiam no mesmo ritmo. E quando eu reexaminava a manhã, constatava com que força plácida ele mesmo ia tomando forma – que a forma dele e a forma da manhã coincidiam, que o meu susto de vê-lo invicto sobre os corcéis da manhã era o mesmo susto de ver com que força ia a manhã rompendo os paredões da noite. E ele – ele, sempre ele – se aproximava de mim e eu quase não podia resistir ao brilho. Como então surgiam ávidos – ele, a manhã – como então demandavam de mim um esforço titânico, era o cabo dos trabalhos saciá-los. Como então exigiam de mim a decisão impossível, a adesão a uma ou outra impaciência. E diziam-se legião, porque eram muitos.

5. Nessa hora crística da manhã, nessa hora elíptica, surge ele dos telhados, dos tubos de encanamento – ele – que nessa hora crítica, que como anímico, que como fáustico, surge, sob a forração do céu, físico dentro de um traçado, surge atípico como um ente que das horas primeiras da manhã alça voo em direção ao que poderíamos chamar de céu se não fosse só um teto embaralhado de nuvens e mais luz. Nessa hora críptica, surge ele apaziguado, donde a saliência, donde a ânsia, donde a impaciência de vê-lo surgir num tríptico que a manhã calma e trabalhosamente vai expondo. É que surge dúbio, os pés misturados ao véu que a manhã lança, as mãos mergulhadas no vento, surge cáustico como um espectro, surge atávico como se de eras mais remotas fosse surgindo e cada traço dele vai sendo retocado pela hora bíblica que a manhã abre, pela hora órfica que de dentro das ogivas da manhã vai sendo calma e vacilantemente validada.

Epílogo

Aqui o grito surdo, aqui o rito – que dele vão sendo perdidos os cacos, os traços que dele guardei tão terna e cautelosamente – vão sendo lançados ao fogo. Aqui o visto reverte em nunca visto, e o riso reverte em esgar – que dele o risco que sobrou intacto é coberto por uma camada de cimento. E não me lembro mais qual dele o perfume, e mesmo o lume que dele lancinante me atingia a vista, e nem o gesto vacilante e nem o doce hálito – que dele aqui vão sendo apagadas as postas, que mesmo a ambígua resposta que obtive dele quando avancei um passo vai sendo nulificada. Que dele aqui vão sendo revertidas em cinza as ressonâncias, e dele aqui vão sendo organizadas em nada as transparências. Aqui o apelo, aqui o selo que guardava dele a validade vai sendo violado – que dele o lastro, que dele o rastro aqui vai sendo coberto por uma camada de barro. E mesmo o corpo pequeno e retrátil, e mesmo a envergadura compacta que eu conseguia suster e alcançar, e mesmo os pés, tão pequenos para pés de um homem – tudo vai sendo rarefeito, tudo vai sendo revertido em escombro – tudo, tudo desativado. Aqui o traste, aqui a parte mais macia vai sendo aniquilada – que dele a haste, o osso, a medula já são peças nulas, que dele os olhos vão sendo vazados por um pontiagudo e laminado vértice. E mesmo as hélices que em movimento e os reclames quando no dele acetinado reino eu forcejava a entrada – que dele as hostes vão sendo desarmadas, e as figuras uma a uma vão sendo retiradas do mapa. Aqui, como desfecho fúnebre, vai o próprio coração dele sendo esbraseado e as vísceras deixadas de lado para que ao menos a carne se aproveite. E as amarras do peito vão sendo desamarradas, e as costuras do ventre vão sendo descosturadas, e os vincos do pescoço vão sendo desvinculados e toda a morna estrutura vai sendo em ganchos dependurada. Não resta nada, nada do que foste ainda resta como um marco de que antes exististes e agora não existes mais.

texto & leitura | Curitiba | ygor raduy

Estou confuso. Canto? Canção? Texto?

O que é uma canção, afinal de contas? Requer ritmo? Poesia? Notas? Acordes?

Ou não? Não precisa de tanto, desde que seja chamada “Canção”.

Não sei… talvez seja conservador demais.

Canção, pra mim, é cantada.

Sei que vou te amar | Atibaia | Jaime Scatena

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a partitura da canção | imagem | ygor raduy

 

Song | Allen Ginsberg

The weight of the world
is love.
Under the burden
of solitude,
under the burden
of dissatisfaction

the weight,
the weight we carry
is love.

Who can deny?
In dreams
it touches
the body,
in thought
constructs
a miracle,
in imagination
anguishes
till born
in human–
looks out of the heart
burning with purity–
for the burden of life
is love,

but we carry the weight
wearily,
and so must rest
in the arms of love
at last,
must rest in the arms
of love.

No rest
without love,
no sleep
without dreams
of love–
be mad or chill
obsessed with angels
or machines,
the final wish
is love
–cannot be bitter,
cannot deny,
cannot withhold
if denied:

the weight is too heavy

–must give
for no return
as thought
is given
in solitude
in all the excellence
of its excess.

The warm bodies
shine together
in the darkness,
the hand moves
to the center
of the flesh,
the skin trembles
in happiness
and the soul comes
joyful to the eye–

yes, yes,
that’s what
I wanted,
I always wanted,
I always wanted,
to return
to the body
where I was born.

the_poem_pressed_into_song_of_confusion | London | R.Cambusano

 

the_poem_pressed_into_song_of_confusion | London | R.Cambusano