Ler um poema em voz alta é conferir a ele uma dimensão muito diferente daquela que a leitura silenciosa possibilita. Eu não li o que os teóricos dizem sobre a voz, então digo aqui o que é da minha experiência como redator e leitor. O poema em questão chama-se Canção do amor inominável. O título é uma clara menção a Oscar Wilde, que se referiu ao amor homossexual masculino como “o amor que não pode dizer seu nome”. A epígrafe, coletada no livro de Levítico, é uma terrível ameaça de Deus contra “o homem que se deita com outro homem como se fosse uma mulher”: “ambos serão réus de morte e o sangue deles cairá sobre eles mesmos”. O poema aproveita a epígrafe durante seu decorrer, inclusive corrigindo-a: o amor do qual aqui se fala requer que os parceiros permaneçam homem e homem.

A gravação é a última de uma série de cinco gravações que fiz e, como é de costume, ainda não estou satisfeito. Como me identifico emocional e sexualmente com o conteúdo do poema, as primeiras leituras continham uma certa ênfase afetiva que a meu ver prejudica a leitura. Tentei, na medida do possível, fazer uma leitura mais, digamos, neutra. Ou então, o que tentei foi que a tensão afetiva ficasse mais sutil. Há várias razões para essa tentativa de neutralidade ou sutileza, mas não falarei delas.

Espero que na leitura eu tenha conseguido reproduzir uma certa musicalidade que o poema tem, um certo ritmo, esses elementos que às vezes são mais importantes do que as palavras porque tentam sensibilizar uma outra parte do ouvinte que não é aquela capaz de entender o conteúdo verbal, mas aquela capaz de perceber musicalidade. Todos sabem que a poesia tem uma arcaica relação com a música, portanto não vou me alongar nisso.

Agora, um pouco sobre o poema. Ele tem passagem que talvez soem herméticas ao ouvinte, algumas outras de tom marcadamente sarcástico e há uma passagem de tom agressivo contra a moral judaico-cristã que na epígrafe condena a homoafetividade. Sobre esse tema, também não me estenderei. Mas, do que esse poema fala? Ele fala da experiência do poeta e de como o poeta entende e sente o amor de um homem por outro nas esferas (misturadas) do sexo e do afeto. Várias passagens metaforizam o contato sexual entre dois homens, enquanto outras tratam, em um tom confessadamente lírico, do afeto (nem sempre) recíproco entre eles.

Aqui termino minhas considerações. Elas são breves de propósito. Eu poderia escrever muito mais sobre o poema e sobre as questões que ele traz. Mas isso nessa situação não é conveniente. O poema precisa falar por si só. Aliás, o que um poeta tem a dizer está muito mais em seu poema do que na reflexão que faz sobre ele. A reflexão é filtrada por uma instância marcadamente intelectual, enquanto que o poema traz muito do intuitivo, indizível, impulsivo. Portanto, fecho aqui este pequeno texto que talvez seja só uma tentativa meio desastrada de fazer com que alguém se disponha a passar vinte minutos escutando poesia.

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