“O pintor não pinta sobre uma tela virgem, nem o escritor escreve sobre uma página branca, mas a página e a tela estão já de tal maneira cobertas de clichês preexistentes, preestabelecidos, que é preciso de início apagar, limpar, laminar, mesmo estraçalhar para fazer passar uma corrente de ar, saída do caos, que nos traga a visão” .

Deleuze e Guattari  |  “O que é filosofia?”

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1. Apenas rabisque. Quanto mais “errado” você rabiscar, mais “certo” o rabisco vai ficar. Se você for destro, use a mão esquerda. Se você for canhoto, use a direita.

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2. Vá seguindo o rumo que o rabisco definiu, mas também transgrida as linhas. Figuras vão aparecendo.

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3. Use tinta para realçar e conferir luz a algumas áreas. Deixe outras áreas mais escuras. O resultado é lamentável.

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4. Diga foda-se e use nanquim para cobrir o entorno das figuras. Cuidado para não se empolgar demais e cobrir tudo de preto. O resultado é ainda mais lamentável que o anterior.

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5. Use novamente o “foda-se” para cobrir quase tudo de branco. Com o cabo do pincel, risque a tinta ainda molhada e faça alguns traços escuros. Seja delicado e violento ao mesmo tempo. Se o objetivo fosse fazer uma pintura “acabada”, este seria o estágio final.

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6. Aqui você desiste de pintar “bem”. “Pintar bem” é terrivelmente enfadonho. Com um giz macio de carvão preto estrague a delicadeza violenta que você conseguiu com tanto custo no estágio anterior. Aqui começa a decadência.

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7. Tudo vai indo muito mal. Use novamente a tinta branca para cobrir o estrago do estágio anterior. Apague a cabeça da figura da direita e sinta isso como uma agressão àquilo que talvez ainda fosse “bom” na pintura.

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8. Com o nanquim, faça riscos decididos e retire toda a ambiguidade e riqueza de signos que ainda persistiam. Você conseguiu fazer uma pintura horrível. Olhe por alguns instantes para ela e sinta-se agradecido e elevado por essa coragem. Há séculos as pessoas vêm arduamente tentando fazer pinturas “bonitas” e ficam cegas para todo o universo de possibilidades que existem além e aquém da beleza. Você conseguiu abrir os olhos. Parabéns. Agora chegou a hora de matar.

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9. Com um estilete robusto, destrua o que você criou. É uma experiência libertadora. Libere a violência que foi reprimida por décadas de tirania do “pintar bem”. Risque com força em várias direções.

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10. Violência, mais violência. É apenas um pedaço de papel borrado de tinta.

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11. Vá rasgando o que o estilete não conseguiu cortar. Use força. Deixe que os pedaços caiam para os lados. Não dê atenção a eles. Esteja completamente atento à destruição. Neste instante, respire fundo e lembre-se da morte.

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12. Etapa final. Contemple o resultado final do processo de esquartejamento das figuras. Ponha tudo num saco plástico e jogue no lixo reciclável. Agora talvez você esteja pronto para pintar.

pintura e fotos | Curitiba | ygor raduy | citação de Deleuze e Guattari sugerida por Cleiton Munchow