O Trânsito, Seus Templos, Seu Sagrado Coração.

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A cidade é um templo fincado sobre o chão. Sob o chão da cidade ergue-se a obra humana e divina. Na cidade, as vias são sacras, a calçada onde os pedestres correm, o asfalto da Avenida Faria Lima em São Paulo é sagrado. Na praça da Sé, ergue-se o grande aracnídeo. Em Londrina, a festa é sagrada, o dia todo é consagrado ao céu. Em São Paulo, quando anoitece, os passageiros do ônibus adormecem, as bocas sagradas abertas recebem com fervor a brisa tóxica.

***

Ao redor do templo, pessoas estão reunidas. A cidade é um coração de espinhos. A Catedral é uma estrutura pontiaguda. “Cristo está presente” – dizem os passantes. Na procissão, o sacerdote exclama: “Que o coração de Jesus proteja a tua vida!” Ouve-se em toda parte um burburinho. Todos sabem-se profanos. Mas a tarde cai, do coração de Jesus escorre um sangue doce, todos querem beber. Uma mulher diz à outra: “Deus me curou da hérnia”. A outra admira-se com o milagre.

***

O Cristo está em todos, seu corpo é consumido na ceia. Mas as luzes da cidade dizem: “O Cristo deixou a cidade, foi para o deserto”. O ônibus segue pela Faria Lima. Aparece o longo muro de um cemitério. Um passageiro sonolento diz: “Que descansem em paz”. Mas os mortos dizem: “Descansamos no solo sagrado da cidade. Nosso corpo também é consumido”. Um homem descasca um ovo cozido. Na missa, as fiéis sabem de cor os trechos bonitos do Evangelho. “O Senhor é minha luz e minha salvação. A quem temerei?”.

***

Ao redor do templo, na cidade de Londrina, o clima é festivo. Duas mulheres cegas conversam. Uma mulher comprou um pastel. Outra dá de presente à amiga um escapulário com a imagem do padroeiro da cidade, que não é nenhum santo, mas o próprio Sagrado Coração de Jesus. A amiga diz: “Obrigado, irmã”. Segundo elas, a alma é eterna e todos serão julgados no dia do Juízo. Quem for pecador, sofrerá eternamente tormentos lancinantes, inclusive os homossexuais.

***

Na escadaria, as freiras estão reunidas, em atitude respeitosa. O cheiro de espetinho chega até mesmo ao interior da Catedral. Consome-se carne, o corpo sagrado é devorado, o Coração Sagrado é repartido em postas. Uma criança pergunta à avó: “Vó, eu vou pro céu?” Jesus está olhando. A cidade pulsa inteira, como um coração. A procissão segue pela rua, todos querem mordiscar o Coração, se for possível arrancar-lhe um naco. Sob os olhos abertos do Cristo, a grande coroa de espinhos. A cidade foi purificada, a tarde desmaiada é um leito. Cansadas da festa, o povo cristão vai se dispersando. Deus está com todos. No centro do templo, Jesus estraçalhado murmura: “Que Deus esteja convosco”. O coro responde: “Ele está no meio de nós”.

Is He really between us?

He who?

Which one of them?

I am exhausted, I’m so tired.

I’ve been lingering too long.

I have waited for the gods,

or any son of a god! to come.

I have travelled, unconsciously

in a trance like flowing way,

They will preach and chant their mantras

and have nothing else to say.

Allah, Jesus, Iemanjá,

Krishna, Baba, Buda and Jah

I’ve been waiting for the day,

no one here will need to pray.
(school rhyme proposal for a better world) 

Cidades | artistas em Diálogo: São Paulo (foto 1 de Gabriela Canale); Londres (texto em Inglês, vídeos 1 e 3 de Luciana Franzolin);Londrina (video 2 e texto de Ygor Raduy).

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