Ecrevo uma carta para quem jamais verei. Nem nunca vi.
Escrevo em Português, mesmo sem saber o que esta pessoa sabe ler. Talvez fosse melhor fazer um desenho, já que eles são legíveis por mais gente do que todos os leitores de língua portuguesa.
Esta pessoa mora sozinha.

Tem hábitos noturnos nos fins de semana.
É jovem, mas nem tanto.
Ela nunca leu tragédia grega.
Adora jogar games de RPG.

Já foi viciada em computadores.
Hoje não é mais.
Um dia, voltará a ser.
Tem mãos másculas e olhar denso. Há alguma pequena fragilidade (nunca saberei qual é).
Ela nunca viu uma guerra, nem nunca verá. Seus pais, viram; seus bisnetos, verão. Adora o sol que esbarra na pele depois que acaba a primavera.
Faz sudoku no celular. É muito rápida nesse jogo.

Não se acha veloz em nada.
Corta cebolas ao contrário.
Usa margarina transgênica.
Não compra melancolias.
Sabe o nome de algumas constelações.

Toma chá de gengibre com muito mel.
Adora comida iraniana.

Vê filmes coreanos que baixa da internet.
Não tem televisão há mais de dez anos.
Adoraria ter um gato, mas quando tinha uns 6 anos alguém disse que era alérgica, e acreditou.
Seu sonho é aprender geometria analítica. Mas “foda-se”, ela pensa toda vez que lembra que sonho deve permanecer entre os desejos, nunca entre as rotinas.
Já amou.
Faz muito tempo. Era ainda mais jovem.

Intui que jamais amará com a mesma sinceridade. E está certa.
Recolhe amor da chuva fina. Guarda em colheres de chá. Depois coloca nos copos dos vizinhos sem que eles saibam.
Mente a idade.
Não gosta de poesia

nem da arquitetura.

Sonha com triângulos escalenos.

P.S.: amanhã enviarei um cheque para esta pessoa com um valor que acho que pode ajudá-la.

UMA CARTA PARA ALGUÉM QUE EU NUNCA CONHECEREI | Neverland | Gabriela Canale respondendo às inspirações de Bia, Hebe, Juliana Coli e LuisFilipe Porto

☛ download you life here | London | R.Cambusano

download you life here ☚ | London | R.Cambusano

Carta para alguém inexistente.

Sem muito prenúncio, te pergunto, já que você não existe: como é não existir?

Como será o meu não existir? Mas já sei que ele nem “será”. A morte extingue o verbo “ser”.

Mas então. Que saudades de você. Que não existe. Sei que você tem segredos.

Eu digo: existir é uma coisa tortuosa. Tenho inveja de você. Me ensina?

Estou brincando. Quero existir. Mas a sua não-existência é tão simétrica.

Mas não sei não existir. Há trinta e três anos venhos existindo, perdi o jeito.

Antes eu não existia. Como você. Eu também já fui inexistente.

E sei que logo, por mais que eu proteste, serei novamente.

A vida é uma ponte entre duas inexistências?

Uma ponte tão frágil, meu amor.

E você, o que tem feito? Desculpe. Sei que você não faz nada.

Tenho o hábito de fazer perguntas idiotas.

Eu sei que se eu publicar essa carta as pessoas poderão pensar – o quê?

Que pensem o que quiserem, não me importo.

Ultimamente, tenho mandado as pessoas se foderem.

Eu me importo com pouca coisa. Como você, por exemplo.

Sei que você não vai responder essa carta.

A inexistência não permite o responder, eu soube.

Mas não ligo. O silêncio é meu estado habitual.

Palavras me irritam. Por isso gostei de você.

Você não tem palavras, se é que um dia as teve.

Não vou terminar essa carta com uma despedida ou assinatura.

Pra que uma despedida que ninguém vai ler?

Vou terminar assim: terminou.

Text 2 | Curitiba | Ygor Raduy.