A e B estão numa mesa de bar às 4 da manhã. Um pouco bêbados.
A: Me diz o que você pensa
B: O que eu penso sobre o quê?
A: Não sei, apenas diga. O que você pensa?
B: Não entendi sua pergunta.
A: Não é pra entender. É pra responder.
B: Bem, eu penso que… Eu penso muitas coisas.
A: O quê, por exemplo?
B: Eu penso sobre a morte.
A: O que pensa sobre ela?
B: Penso que morrer deve ser suave.
A: Descreva isso. Suave como?
B: Morrer deve ser de uma suavidade. Como apagar-se, deixar-se, dissolver-se numa substância branca. Talvez seja um envolver-se, um devolver-se, um diluir-se. Um repousar. Imagino a morte aveludada, tranqüila, apenas um ir em direção…
A: Em direção a que?
B: Não sei.
A: Eu também não sei. Será que o garçom sabe?
Chamam o garçom (G). É um senhor grisalho. Perguntam a ele para onde se vai depois da morte. Ele faz uma expressão séria, como se aquela pergunta o ofendesse. Mas depois diz:
G: Essa é a pergunta que ninguém sabe responder, rapazes. Eu acho que não se vai a lugar algum. Temos apenas essa vida. Essa conversa de vida após a morte é besteira. Aproveitem aqui, porque depois não há nada. Carpe diem. Vão querer mais uma cerveja?
O garçom retira-se. A e B ficam em silêncio, pensativos. As palavras do garçom parecem ter exercido um forte efeito sobre eles.
B: Mas então, se não há nada depois… Se temos apenas esse tempo tão pequeno aqui… Toda a coisa muda de figura, não é? Estamos acostumados a pensar num depois, mesmo sem saber. Mas se considerarmos seriamente que não há nada depois da morte, nem céu, nem deus, nem inferno, nem julgamento, então…
A (curioso): Então o quê?
B: Então podemos fazer tudo!
A: Por exemplo?
B: Sei lá, sair pelado na rua, desistir do doutorado, gritar, mudar de sexo, comprar um megafone e dizer, do alto de um prédio: “Viva o Quintana! Viva a Gabi! vocês são todos burros, feios e não morrem nunca!”
A: Você está bêbado.
B: Bem, foi você que veio com essa perguntinha afetada de “o que você pensa?” Agora agüente. Mas ouçamos de você, doutorando em Filosofia, oh, ouçamos com atenção – o que é que o senhor pensa? Onde é que o senhor pensa que vai?
A gargalha ruidosamente. Não consegue parar de rir. Todos os clientes do bar olham. Cinco minutos depois, quando o riso vai acabando, B insiste.
B: Pois então, senhor Filósofo. O que o senhor pensa?
A assume uma expressão grave, como se fosse dizer algo profundo e definitivo sobre a existência:
A: Eu penso que devíamos pedir a conta, ir pra casa e trepar até não agüentar mais.
B: Pois não é que é uma boa idéia!
Os dois, em uníssono:
A e B: Garçom, a conta!
Cities in dialogue:
- Photo 1 (Fuga Em Picadilly | London | R.Cambusano)
- Text: (O que você pensa? | Curitiba | Ygor Raduy)
- Photo 2 (Fui ao maps procurando me achar | Curitiba | (CSRF.) Cesar Felipe Pereira
- Colagem (te conto por onde eu estive – Porto Alegre – Gabriel Canale)
- Collage 2 (parenteses de mapa – Porto Alegre – Gabriela Canale)
- GIF 1 (Eu faço, logo existo em alguém e para isto sempre vou ao não lugar… | Franca | Tiago Spina)
- Photo 3 (Portou-se com indiferença, passei do seu lado | Curitiba | Marlon Anjos)
- Photo 4 (Portou-se com indiferença, estou do seu lado | Curitiba | Marlon Anjos)
- Drawing (O que pensei e o que penso | Atibaia | Jaime Scatena)








Deixe um comentário