Sobre o Desafio de Entender o que Chamamos de “Cidade”.

Hoje é dia de uma postagem especulativa. Alguém a fim de pesquisar? No Multigraphias, costumamos pesquisar com imagens. E se tentássemos um pouco com as palavras? Explico-me.

 

Há tempo ando pensando certas coisas sobre a cidade. Para ser mais preciso, ando pensando sobre o que significa a própria palavra “cidade”. Minha inquietação é a seguinte: não posso simplesmente aceitar a palavra “cidade” como se a ela correspondesse algo bem delimitado no mundo. Dizemos, ao fim de cada post, “cities in dialogue” – city, Stadt, ciudad – seja lá em que língua digamos. Mas, o que é mesmo que está em diálogo? Sabemos alguma coisa disso que nomeamos em diversas línguas? Será que essas designações nos bastam? Ficaremos satisfeitos com esse rótulo, mesmo sabendo que ele é completamente arbitrário?

 

Nesse ponto, preciso fazer um parênteses e dar o devido crédito a quem levantou essa espécie de dúvida – Nietzsche. Quando nomeamos as coisas, diz ele, acreditamos conhecer algo sobre elas. Somos ingênuos o suficiente para crer que os nosso obtusos instrumentos de linguagem são capazes de decifrar o mundo. Esquecemos que a linguagem não passa de um instrumento, de uma invenção, de um código arbitrário. A partir daí, acreditamos que o mundo esteja organizado de acordo com a gramática de que dispomos. Escolhi dois pequenos aforismos de Aurora que dizem, em pouquíssimas palavras, muito sobre essa questão:

***

As palavras presentes em nós – Exprimimos nossos pensamentos sempre com as palavras que se acham à mão. Ou, para exprimir toda a minha suspeita: a cada instante temos apenas o pensamento  para o qual as palavras nos estão à mão, que conseguem exprimi-lo aproximadamente. (p. 174)

 

As palavras estão em nosso caminho! – Onde os antigos homens colocavam uma palavra, acreditavam ter feito uma descoberta. Como era diferente, na verdade! – eles haviam tocado num problema e, supondo tê-lo resolvido, haviam criado um obstáculo para a solução. – Agora, a cada conhecimento tropeçamos em palavras eternizadas, duras como pedras, e é mais fácil quebramos uma perna do que uma palavra. (p. 43)

 

***

 

NIETZSCHE, Friedrich. Aurora – reflexões sobre os preconceitos morais. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

 

Sabemos o que é a cidade? Não. Sabemos apenas que tal palavra foi inventada para designar algo muito complexo, algo cheio de contraste, insensatez, diversidade, paradoxo – numa palavra – diferença. E toda a diferença – e a multiplicidade que ela implica – encontra-se reduzida à égide de uma só palavra, isto é, a uma unidade ilusória que camufla e simplifica aquilo que não entendemos. Aquilo que, de tão vário e multifacetado, escapa do alcance da razão.

 

A questão é: como recuperar a diferença? Como conseguir, por meio de palavras, sugerir algo desse “isso”, desse “it”, desse “es”, que queremos explorar? Como revelar o múltiplo ao invés de camuflá-lo? Como escapar das malhas da linguagem?

 

Depois que o Multigraphias passou a fazer parte da minha vida, passei a desconfiar que a cidade é algo muito mais difícil de entender do que imaginamos. O problema é que estamos acostumados a ela. Olhamos para a cidade como se sua existência fosse natural e lógica, como se nada fosse mais comum do que casas, ruas bairros, linhas de ônibus, edifícios, shopping centers. Nossos olhos estão acostumados a olhar as coisas da cidade como se fossem banais. Não poderia ser de outro modo, já que somos urbanos. A cidade para nós é habitat, e não motivo de espanto.

 

Ou seja, ela quase já não nos sensibiliza. Andamos por ela como um tigre anda pela selva, como um peixe avança na água. Passamos através da cidade – lojas, viadutos, pessoas dormindo na calçada, livrarias, cafés, hospitais, universidades – e dizemos “Aí está a cidade.” Ela se tornou comum para nós. Quase nada do que nela acontece nos causa espanto, no sentido forte e filosófico da palavra.

 

Eu penso – posso estar enganado – que toda arte que mereça esse nome nasce de alguma espécie de espanto. A alegria e o susto do espanto são fundamentais nesse campo. Em relação à cidade, não nos espantamos, já que ali moramos , ali crescemos e construímos nossas vidas, ali encontramos nossos amigos, ali nos alimentamos, ali sofremos, gozamos, nascemos e morremos.

 

Será que é possível que passemos olhar a cidade com olhos espantados? Talvez, se nos propusermos a tanto. Eu pensei num experimento. Em um dia qualquer, quando tivermos tranqüilidade e tempo, passear pela cidade fingindo que jamais estivemos nela, que tudo aquilo é bizarro para nós, tudo é estranho, tudo nos excita, nos comove, nos toca. Sem câmera, sem proposta, sem busca, sem analisar, estetizar, interpretar – sem pensar. Como um aborígene que vê a cidade pela primeira vez. E tudo ali é novo, belo e ameaçador.

 

Não sei até que ponto seremos bem sucedidos nesse exercício. Mas algo me diz que vale tentar. E então sentir – mais do que entender – que “cidade” é só uma palavra. E que a palavra simplifica, restringe, vulgariza a riqueza das coisas. Para tentar limpar os olhos da poeira do hábito e vislumbrar algo desse fantástico, inacreditável, multifacetado agrupamento de pessoas que não se conhecem, esse mar de metal e concreto generoso em formas, reflexos, cores, sons, odores. Esse incompreensível oceano de coisas organizadas segundo uma ordem estabelecida ou completamente desorganizadas, esse “isso” que, visto de cima, lembra um formigueiro furioso, caótico, cruel, mal-cheiroso e às vezes belo.

 

Para pôr, enfim, nesse lugar, um grande ponto de interrogação. Como se então disséssemos:

 

“Não sabemos o que isso é, mas estamos pesquisando. Deve ter sido uma aldeia no início, mas cresceu demais, fugiu de nosso controle, de forma que já não entendemos mais o que aqui se passa. Sabemos apenas que o que aqui se passa nos afeta a tal ponto que todos os dias saímos para a rua e registramos um pequenos fragmento desse lugar. E oferecemos depois ao olhar do outro o fragmento coletado. Para que o outro, através de um jogo imprevisto, estabeleça conosco um diálogo. Para que possamos ver o nosso olhar e a nossa dúvida refletidos no olhar do outro. E talvez – temos esse secreta esperança – que desse diálogo e desse jogo surja alguma espécie de compreensão. Daí que a arte, para nós, age como acesso a uma espécie de conhecimento que jamais atingiríamos de outro modo”.

***

O espanto é diário e contínuo. Eu (já disse outras vezes) acredito no poder transformador dos cenários. Este é um conhecimento empírico. Não sabemos completamente o que é uma cidade. É possível saber? Este projeto nasceu exatamente para perguntarmos. O formato foi pensado para abrir espaço para o espanto.

Percorrer andando as cidades não é um hábito novo, sabemos. Peripatéticos, situacionistas, andarilhos anônimos – muitos conhecem a experiência de percorrer o espaço público ao redor de onde se habita ou se passa. O conhecimento advindo do percurso é um questionamento que, pelo menos para mim, nunca cessa.

Se pensarmos no formato deste projeto vamos entender que ele tenta organizar de alguma forma muito singela esta experiência. Ao propor o registro ou construção artística, como queira, da cidade, propomos a captura, o congelamento e, ao mesmo tempo, o espanto e a criação. Podemos perguntar por que registramos. Por que congelamos? Por que recriamos? Podemos também fazer o exercício que propõe. Confesso que já andei embebida de espanto pela cidade muitas vezes. Hoje eu prefiro fotografar. É a forma em que consigo melhor mediar esta experiência. É como eu elaboro e me coloco mais conscientemente perante a cidade. Pode ser uma forma de simplificá-la, de lê-la, de inscrever-me nela. Pode reduzir muito o que a cidade é. Mas creio que o que me interessa é a parte, são os vestígios de um todo no qual me inscrevo. Se a entendo? Se creio ser possível se aproximar de seu centro? Não, nem creio em centro. Nem creio que haja em nós, observadores-habitantes-peregrinos, uma unidade estável e coesa capaz de supor uma ordem no caos da cidade.

Quando tentamos dialogar diariamente estamos suspendendo o tempo do espanto, extendendo-o ao infinito. Eu olho para São Paulo como uma estrangeira. Como olhei assim para todas as cidades em que morei – Porto Alegre, Foz do Iguaçu, Londrina, Buenos Aires. (Veja como os nomes das cidades ajudam a entender alguma coisa, mesmo que não sejam  totalmente coerentes e contenham sua complexidade).

E o espanto aqui no Multigraphias é potencializado porque o que eu vejo nas minhas cidades é seguido de outros espantos propostos por outros olhares que me mostram outros cenários (urbanos e subjetivos).

Por que chamamos a teia complexa de cidade?

Por que mapeamos no espaço nossa atuação. Escrever “Gabriela Canale (São Paulo)” como legenda de uma foto é apontar autoria e localização geográfica. Poderíamos facilmente substituir o nome da cidade por uma referência de geolocalização, por exemplo: “Gabriela Canale ( -21º 8′ 37″ S  -50º 25′ 33″ W)”.

O fato é que existe um nome para o território em que me desloco todos os dias. E ele foi  batizado, o que é também uma ficção. Chamar de São Paulo este lugar é aludir a uma parte reduzida e recente de uma multimilenar história. O nome ficcional não importa tanto, não creio que ele aprisione nossa percepção. Da mesma forma que assinar Gabriela Canale é aludir a uma ficção batizada pela minha mãe. Não é o nome cidade que reduz a experiência de percorrê-la, fotografá-la e compartilhá-la. Os nomes das cidades e os nossos, seus leitores, são ficções que acrescentam elementos nas narrativas que temos construído quase todos os dias.

 

Cities in dialogue: text: Curitiba (Ygor Raduy) – or Ygor Raduy in 25º25’48” S e 49º16’15” W; Gabriela Canale ( -21º 8′ 37″ S  -50º 25′ 33″ W).

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