Cidade Extraída de um Sonho.

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A cidade não é real. Embora pareça sólida, a cidade não passa de um aglomerado de vultos. Ninguém sabe do que na cidade se passa, pois estão todos muito ocupados. Desconfie-se, portanto, que a cidade sejam reflexos, imagens extraídas de sonhos. Desconfie-se que as altas estruturas que a cidade ergue não sejam nada mais do que armações muito frágeis, muito provisórias. E que os seres que na cidade transitam sejam apenas fantasmas, fogo-fátuo, aparições.

 

A cidade é uma miragem e sempre nos escapa. O homem que fotografa a cidade sente-se orgulhoso por poder registrar um pouco do “real”. Sente-se até mesmo superior aos outros, pois supostamente possui olhos capazes de ver o que os outros não vêem, além de uma bela câmera profissional nas mãos. Mas se perguntássemos ao homem o que entende por “realidade”, ele se veria preso em confusões e paradoxos e acabaria, depois de alguma luta, se fosse honesto, por revelar que não sabe. Eis a questão.

 

A cidade engana, pois nada parece ser tão “real” quanto ela. Nunca vi algo mais “real” do que uma larga avenida congestionada.

Tudo se passa como se, no centro da grande cidade, estivéssemos no centro da “realidade” mesma. Ao contrário, creio que estamos no centro do sonho mais tresloucado que o homem já inventou. Um simples pensamento ou, digamos, um deserto, me parece mais “real” do que tal labirinto bizarro de pedras, essa teia untada com suor e sangue por onde todos transitam sem saber saber direito para onde vão ou mesmo por que vão, por quais motivos continuam trafegando nos canais dessa teia, espremidos no interior de ônibus, correndo de lá pra cá, de cá pra lá, procurando algo que não conhecem, algo que nunca chegam a conhecer.

 

A cidade é um espaço projetado pelo humano; suas vias estão dentro do humano; tudo o que nela existe é sonho, desejo, poder, vaidade e imaginação humanas. São espaços sonhados; são lugares que de tão instáveis mal chegam a ser mesmo “lugares”.

São pontos de passagem, vespeiro de almas em tormento, algazarra de tantas coisas juntas, misturadas e ao mesmo tempo que já não se pode mais distinguir o “isso” do “aquilo” do “aquele outro”.

É até mesmo uma audácia de nossa parte usar uma só palavra – “cidade” – para designar algo tão vasto e improvável. Sob esse nome, alojamos infinitos conjuntos de coisas muitos diferentes entre si. É até mesmo admirável que consigamos reunir a multiplicidade monstruosa do que chamamos cidade sob a égide dessa palavrinha tão pequena. Daí que, antes de tudo, crer na cidade como “real” seja um produto dos nossos obtusos instrumentos de linguagem. E talvez, para entender o que seja a cidade devamos começar por nós mesmos, ou seja, pesquisando em nós mesmos de que forma as cidades se constituem, a dose de sonho, ilusão, dissimulação, engano; assim como a dose de razão, lucidez, sobriedade que entram na composição do que, dentro de nós, chamamos, muito audaciosamente, de “cidade”.

Cenas de transformação acontecem o tempo todo, da janela que é engolida pelo cimento, a paisagem torna-se a “cidade”.

Cities in dialogue: photos 1,2,3,5,7,8 and text: Antônio Prado/RS (Ygor Raduy); photos 4,6: São Paulo (Gabriela Canale).

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