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A e B no topo de um arranha-céu.

 

A: E aí, vamos pular ou não?

B: Calma, estou pensando um pouco.

A: Pensando em que?

B: Não sei direito. Me dê um instante.

 

(…)

 

A: Você parecia tão decidido lá embaixo… Disse que finalmente chegara à conclusão de que não há sentido algum que justifique a vida e que dê sentido ao sofrimento. Parecia convicto de tudo é vão, de que mesmo a arte é vã. Foi tão persuasivo, tão ardente. Citou quinze filósofos em cinco minutos.

B: É que agora me vieram outros pensamentos.

A: Quais?

B: E se houver algum sentido, mas inacessível a nós?

A: Eu sabia. Você nunca conseguiu parar de crer em Deus. Todo seu discurso de ateu nietzscheano era uma farsa. Eu sempre soube.

B: Não, você não entende. Só estou considerando a …

A: A possibilidade de que Deus exista. É isso. Depois de mestrado, doutorado, pós-doutorado e PhD pensando em trágico, existencialismo, fenomenologia, transvaloração, você vem me falar de Deus. Oras… E eu ainda fui estúpido o suficiente para ser seu orientando! Onde fui me meter?

B: Espere! Não é isso. Estou pensando que… Que talvez… Que talvez eu esteja, digo, vendo você assim, exaltado, que talvez nós possamos, não sei, vendo o suor escorrendo do seu pescoço, começo a achar que, esses teus olhos agora cresceram, bem…sim, começo a achar que, você virou de repente um homem, não me leve a mal, sua camisa está encharcada de suor…

B: Você quer dizer que…

A: Sim! É isso! Estou louco por você! Absolutamente louco! Me dê ao menos um beijo antes de pularmos!

B: Mas, como, não entendo, você, eu… Afinal, a idéia era cometer suicídio ou fazer declarações de amor ridículas? Fiquei confuso agora. Íamos pular, nos livrar da vida, e você me vem… olha só, entenda, não sou gay…

 

(…)

 

A beija B furiosamente, introduzindo a língua na boca de B com violência, rasgando a camisa suada de B com arrancadas sucessivas. B resiste, empurrando A em direção ao parapeito. A gruda o corpo no corpo de B. Mas B resiste, tentando se livrar, esmurrando as costas de A, desferindo coices no ar. A comprime fortemente B contra o corpo, cingindo os braços em volta do torso de B. Aproximam-se mais do parapeito. B começa a ceder.  As mãos de B ainda esmurram  A, mas  já hesitam.  Só mais um passo. Estão colados. B entrega-se, e transfere o peso de seu corpo  ao corpo de A, avançando sobre A como se fosse devorá-lo. Amam-se por um instante. É suficiente.

Na calçada, era impossível distinguir os pedaços de um dos pedaços do outro.

 



Cities in dialogue: photos 1 and 2: Nottingham (Luciana Franzolin); text: Londrina (Ygor Raduy); photo 3, 4 and 5: São Paulo (Gabriela Canale); photo 6: San Francisco (Tabea Huth).

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