E,

quando ouço o silêncio do século XXI

no seu vácuo impossível,

sou a órbita da urbe

ritmada do parnaso ao Funk.

Sou a rima do meu cobrador de ônibus e a contribuição infinita de todos seus “erros”.

“A poesia existe nos fatos” – diz Oswald de Andrade no início do “Manifesto  Pau-Brasil”.  Pode-se perguntar:  o que Oswald entende por “fatos”?  Serão “fatos” para Oswald, quem sabe, certa parcela da cultura brasileira digna de figurar na poesia.  Não se sabe. Mais à frente o autor defende uma curiosa  idéia sobre a língua:  “A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.” Pode-se perguntar:  mas não é estranha a idéia de uma “língua natural”? A língua, certamente, é uma construção altamente artificiosa. Seus mecanismos são resultado do engenho  e da necessidade humanas de organizar para si um sentido sem o qual a vida não seria possível.  Não parece contraditória em si mesma a expressão “língua natural”? Na frase seguinte, a reivindicação de Oswald por “erros” parece supor que existam, por outro lado, “acertos”, embora não sejam tão interessantes para a poesia como os primeiros. Por fim, sobre uma idéia de poesia construída por uma língua que seja “como somos” e “como falamos” pode-se perguntar: “como somos?” Ou então: “como falamos”? Quem é, afinal, esse “nós” a que Oswald se refere? A mim, a noção de poesia ali apresentada parece um tanto totalitária. Como se pode estar convicto de que certos elementos são melhores para a poesia do que outros, e a partir disso prescrever uma espécie “ideal” de poesia? A especificidade do poético, a meus olhos, é justamente seu caráter de pesquisa do mundo e da linguagem. Para isso, é fundamental  não se ater a métodos, prescrições ou ideários estabelecidos de antemão. E talvez esse seja enfim um problema comum a todos os manifestos artísticos: tentam estabelecer normas para a arte e nisso se chocam com o próprio caráter anti-normativo do artístico.

Cities in dialogue: text 1: Sao Paulo (Gabriela Canale); photo 1: London (Luciana Franzolin); text 2: Londrina (Ygor Raduy).


Comentários

Uma resposta a “”

  1. gabicanale

    Sim, manifestos são totalitários. Querem ser cartilhas, querem aprisionar, querem ditar normas e, em geral, querem dizer que a opção que proclamam é a mesma que praticam. Manifestos são totalitários, mas podem ser lidos como documentos de uma época, como chaves de crises em períodos de convivência de extremos.
    O que Oswald quer é que se olhe para a rua, para a vida cotidiana. Postular esta premissa como regra é, evidentemente, impor uma ordem tão castradora quanto a gabinetista anterior. O próprio modernismo, poucos anos depois, se tornou cânone. Houve, então, outra tentativa de equilíbrio, novas crises.
    O que me interessa no manifesto é uma luz que orienta o olhar para cidade e a fala cotidianas. Ouvir os “erros” do cobrador de ônibus, ver as ruas, as pessoas que cruzam as avenidas, gente que existe além das capas de revistas, da ficha técnica de filmes, seriados – olhar para tudo em um espaço poético que é capaz de incluir sem preconceito tanto os parnasianos quanto os funkeiros, capicce? (Merda, você me fez explicar um poema!)

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