para Débora Domke
Podia ter amor que eu amasse mais, mas não teve. O foda é que já faz tantos meses. Mas tudo bem, a vida é sempre boa. Igual à trepada, mesmo quando é ruim, é bom, e a gente sempre acaba aprendendo alguma coisa.
Fechou o livro com o rosto queimando. Olhou em volta, como se o cobrador pudesse saber o que estava lendo. Sentiu raiva. Por que alguém no mundo escreveria uma coisa daquelas? Por que alguém compraria aquele livro idiota?
Aquelas palavras de sexo que lera não eram só ofensivas, eram um portal para pessoas que lhe inspiravam medo. Lembrou dos slides que a professora passava nas aulas de artes – um homem que via suas costas no espelho, uma pedra flutuando como uma nuvem. Depois vieram as imagens das revistinhas de putaria que a vizinha mostrava excitada, semanas antes de ficar grávida aos 14 anos.
Envolveu o livro com um saco plástico de supermercado que sobrava na bolsa. Apertou o botão, a luz vermelha acendeu. Em segundos estava fora do ônibus, sem livro algum.
Alívio, a vida era pura de novo.
O resto das palavras fica ecoando no espaço, mesmo se deixadas em algum caminho. Enquanto as impressões desses amores transita até se tornarem (com o tempo) figuras estáticas esculpidas em toras de uma madeira morta ou retratos antigos escorregando em suas janelas de vidro.
Cidades | artistas em Diálogo: São Paulo (Texto 1 e Foto 1 de Gabriela Canale), Berlin (foto 2 e texto 2 de Ísis Fernandes).


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