“Entre a realidade e a imagem, no chão seco que as separa.” Manuel Bandeira
Nos azulejos da galeria, anos 60, 70, 50?
De Londrina.
São pisos antigos que a criança morna pisa acelerada.
A tarde na Concha estaca o céu quase negro,
mas não escuro:
nos bancos de concreto o calor despeja todos,
ninguém sentado.
Estamos em pé no centro de uma cidade.
A tarde faz voltas com nuvens vermelhas, verdes, azuladas;
não chega a noite nem sai o dia.
O ficar num banco, final de tarde eterno na compilação de olhos
A procurarem seu espaço na roda do vilarejo.
A menina tira a sandália de borracha.
Seus pés ardem no cimento requente.
O acento das frases na brincadeira é infantil.
O despir-se das sandálias conforma o resto da tarde
que teima em não vir.
Do chão da cidade abruptam torres de tijolos
Aguardam o momento de acender seus faróis?
Faróis pra quê?
É uma pista
É um corredor
É uma estrada só com curva
São naus impostas pro naufrágio circular
(Não haverá água pra afogar todo mundo)
As reentrâncias revolvidas trazem muita areia
A cidade cresceu
As cidades crescem nas bordas e no centro
Onde não pára de chegar gentes novas
Um homem bebe cerveja no bar.
A criança entra no bar para comprar gula.
Enquanto a luz não se vai eterna
A luz da lua coagula a tela do mundo
O olhar alcoólico não desgruda do poço, garrafa continente.
Do alto do 19º andar entrará ar quente
E o chão que suporta o prédio vai parar de dizer coisas?
O descarrilhamento dos trens em passo de pé.
Planos de pescaria, de fuga anciã
Diversão antiga (no hoje)
A menina dos pés ardentes deu um jeito de me repreender
por furar o círculo da brincadeira ao voltar para casa.
Artistas em diálogo: poema de Miguel Vieira (Londrina); vídeo 1 de Ygor Raduy (Londrina); vídeo 2 Gabriela Canale (São Paulo); Foto 1 Ísis Fernandes (Berlin).

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