Musik | Schönheit | Mozart.

Oh meus pequenos filamentos, minhas músicas –
quando a música esmera-se em ativar meus pequenos
filamentos, oh repouso de cellos, oh canção.

Embora não haja a quem cantar,
cantava a música, hoje mesmo, ao fim da tarde,
quando dei o play na sinfonia concertante.

A tarde despregou-se de si mesma, excitada,
rompiam-se ali as mordaças, ao fim do
primero compasso, da tarde desmaiada
emergiu a noite, pomposa – oh canto, oh canção!

E comovido, caminhei até a sacada,
era a música em meu pequeno coração –
em angústia, admirei que a noite, embora
pousada, parecia cortejada, agradecida,
suavizada pela música – oh canto, oh canção.

Meus filamentos com a noite e ocupados
demais com Mozart para atender o telefone,
mas então, ali estava, enfim, a beleza?

Oh canto, ali estava, eu descobria, naquela
música já tão enraizada em mim, organizada
em mim, na sinfonia concertante, justo ali,
era inaugurada a beleza, como não me dera conta?

Eu, que vasculhara o mundo à procura da beleza, que concordara que sem a música a vida seria erro – embora sempre houvesse sentido nessa máxima algo de insensato. Eu enfim entendia porque havia desde sempre concordado nesse ponto com Nietzsche – porque eu me dera conta de que preferia a música a todo resto, porque com horror me dera conta de que trocaria todo resto – gente, paisagem, diversão, trabalho – trocaria tudo pela música se fosse necessário.

Eu pensava comigo: “Então, o que a beleza diz é algo monstruoso. Sim, mas é preciso aceitar a monstruosidade. Quanto mais cresce meu ódio pelo ser humano, mais aumenta meu amor pela música. Assim como não existe nada mais odiável e perverso no mundo do que o humano – e não é necessário, creio, ilustrar cmo exemplos até onde vai a perversidade humana –  não existe nada mais belo e digno de admiração que a música.”

Foi uma experiência de alegria e horror.

Baixe aqui, caso não tenha nada mais útil ou rentável a fazer, a música que inspirou o texto acima: primeiro movimento da Sinfonia Concertante KV364 de Mozart.
Cities in dialogue: photos 1: São Paulo (Gabriela Canale);  text: Curitiba (Ygor Raduy).


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