
Citemos pois, os aforismos que a cidade expõe. É de primeira ordem dizer que a cidade tem seus textos – que nem sempre são fáceis de ler. Ciosos dessa dificuldade, resolvemos aqui traduzir o discurso da cidade em palavras. Será uma perda e um consolo para nós, que habitamos a cidade, mas conhecemos mal e vagamente sua escritura. Fui incumbido de dizer com linguagem humana o que a cidade diz sem verbo. Mas não me sinto apto para a tarefa.
De qualquer forma, anuncio que o discurso da cidade é hermético. As informações que tenho são insuficientes para construir sentido. A cidade despreza o sentido. A sintaxe da cidade opera em nível telecinético. Vou me esforçar ao máximo para que minha tradução seja compreensível, embora tal fator dependa pouco de mim, já que não tenho poder algum sobre camadas calcárias de significação já cristalizadas e secas.
Dito isso, apresento em língua humana o material que recebi e que me encarrego de traduzir.
Hormônio, sua prece – em letras das quais não se:
muro, coração de antenas, fresta – ou armação de tijolos,
fios de condução dispostos em canos de material
sintético, forragem da alumínio dos compartimentos.
(Diz-se que nas centrais de energia pode-se ouvir
o deus que governa a voltagem, o deus que determina
a força dos eletrochoques e o giro-motriz do maquinário.)
Em fração, em rumor, varia o nível de pedra construída
e moldada em edifício – mas não se pode aferir a que
preço a cidade – andaimes, barragens, ligamentos –
não se confere o ritmo que age na cidade em festa e nem
do sangue derramado na cidade pode-se contar os litros.
Embora nas praças, embora nos aeroportos,
embora nas pistas de pouso e repouso – lugar
de sinais, embora nos becos beba-se cachaça e
a brasa de cigarros exercite seu brilho, já não
nos são úteis os mapas pois os rumos divergem em
ângulo e direção, de forma que não mais falamos
de espaço mas de confusão de fragmentos de espaço.
O trabalho, o cimento, na cidade já não se pode:
há, dentro dela, procissão de faróis e riqueza
de reflexos, pois o asfalto é doce, o metal pontiagudo
é doce – há janela, hino, sagração, assassinato,
peste, coração, passagem viaduto e lojas de varejo.
Cities in dialogue: photo 1: São Paulo (Gabriela Canale); text 01: Curitiba (Ygor Raduy); photo 2: Berlin (Ísis Fernandes).photo 3: London (Luciana Franzolin)


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