Ali está ele – e, no entanto, não está. Mas quase o podemos ver sentado na escrivaninha, em atitude meditativa. Onde está o artista? Aquele que amou a cidade, que sobre suas ruas debruçou-se – “que saudade das ruas de Porto Alegre por onde nunca passei!” – estava ali há pouco! Não está mais. Seu quarto é um cenário, a laranja ao lado dos papéis é certamente de plástico. Porém, por um instante, quando ousamos pesquisar o quarto em seus detalhes, podemos vislumbrar seu vulto, sua silhueta familiar, seu sorriso discreto, suas mãos delicadas. Ele é belo e altivo em sua solidão – ele precisa estar consigo mesmo, precisa destacar-se da massa para consumar-se como artista. O poeta preza sua solidão como um tesouro. Porém, estranhamente, seu quarto segue, como em formol conservado; seu espaço persiste e agora abre-se à vista de todos: o quarto do poeta, seu reduto mais íntimo, tornou-se público. A solidão maculada, o tesouro exposto, tornado comum, o bastidor revelado. Não será isso uma impertinência? Por que expôr a intimidade do poeta à vulgaridade dos olhos da massa? Alguns dirão: “é uma homenagem.” Mas que estranha forma de homenagear o poeta, pondo sua intimidade à mostra e tornando superficial e facilmente acessível o que para ele era o mais profundo e trabalhoso exercício: destacar-se da rua, tornar-se só, modelar-se na solidão, fazer de si mesmo uma obra de arte. Não quero mais ver o quarto do poeta. É obsceno deixá-lo à mostra. É desrespeitoso, baixo e pueril, fruto de uma curiosidade doentia e ávida por intimidades, transformar o quarto do poeta numa vitrine a mais, entre as tantas que já por aí existem.
Cities in dialogue: photos 1, 2, 3 , 4 and text: Porto Alegre (Ygor Raduy); photo 5: London (Luciana Franzolin).





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