Sim, fui eu.
Escolhi uma palavra dispersa na escrita da cidade. Entre tantas placas, pichações, propagandas, escolhi o contraste vermelho sobre o branco sobre o cinza. Escolhi uma palavra brega (será?). Algo que destoa das buzinadas e do cinza da Avenida Pompéia.

Selecionei e registrei. Transformei em memória fixa o banco e a palavra. Amor e ócio. Sobre a palavra colei o oito invertido, o infinito, o símbolo rosiano, o ícone multigráphico.

Então transformei de novo a imagem e a minha ação em memória fixa. Mais uma foto, e mais uma. Registrei pra compartilhar, para lembrar a ação transgressora na escrita da cidade, lembrar que meu corpo esteve lá e que lá também alguém escreveu um verso órfão que eu ilustrei. Nós dois – poeta e ilustradora – autores anônimos das vielas da cidade.

Wer mit Ungeheuern kämpft, mag zusehn, daß er nicht dabei zum Ungeheuer wird. Und wenn du lange in einen Abgrund blickst, blickt der Abgrund auch in dich hinein.

Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.

[ NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 79; seção “Máximas e interlúdios” ]

***

Fui eu. Confesso. Estive lá. Fotografei a frase grafitada no muro: “Cadê a arte que estava aqui?” O grafiteiro provavelmente se refere aos grafites que estavam no muro antes que ele fosse pintado de rosa-claro. Hoje mesmo vou comprar uma lata de spray e responder: “Está escondida sobre a camada de tinta. Mas por que você se importa tanto? Esperava que sua arte ficasse no muro para sempre? Achava que ela era tão boa a ponto de durar até que o muro desabasse de velho?”

Com o pouco de experiência que adquiri, aprendi que os artistas são seres vaidosos, irritáveis, depressivos, ansiosos, verborrágicos e, acima de tudo, extrema e desesperadamente carentes de reconhecimento.

O escritor que diz que escreve para si mesmo ou o pintor que diz que pinta para si mesmo são grandes mentirosos. Mas o que é a arte senão a glorificação da mentira, da máscara, da aparência, da beleza, do engenho, da sutileza em seduzir? O que é arte senão a suprema maestria  em encantar, enganar, zombar, fingir, dissimular, editar, maquiar? A arte parece dizer: “Ó, pobres presas da rotina e dos dias cinzas de trabalho estafante! Venham para mim e eu vos embriagarei com o ópio das coisas que são belas!” Será a arte, então, um narcótico? Dioniso diz que sim.

Isso não tem nada a ver com o que eu estava escrevendo no começo do texto. A Gabi diria: “Fugiu do tema da redação”.  Se bem que não importa. Não é prova de doutorado. Posso escrever o que bem entender. Ninguém vai ler mesmo.

Retomando o fio da reflexão inicial, a frase “Cadê a arte que estava aqui?” é o protesto do artista frente ao esquecimento, apagamento, dissolução de seu material. A ele, parece terrível que o mundo resolva cobrir os seus desenhos  feios com tinta rosa. Ninguém mandou desenhar no muro do cemitério. Um dia, até  a Monalisa vai se desintegrar. Até mesmo Guernica vai ser transformada em pó. Não viu o que aconteceu com a biblioteca de Alexandria, com o World Trade Center, com o Partenon? Porque justo os seus rabiscos infantis teriam que  ser conservados? Se o seu trabalho ainda fosse bom, vá lá. Mas eram só figuras coloridas copiadas de HQ´s. Era bonito, bem feito, dava pra ver que você aprendeu bem a técnica. Mas não era arte. De forma que você deveria mudar sua pergunta para “Cadê os desenhos coloridos e bobos que estavam aqui?”

Photos, 1, 2, 3 and text 1: São Paulo (Gabriela Canale); photo 4: Berlim (Ísis Fernandes); photomontage and text 2: Londrina (Y. Raduy); quotation:  F. Nietzsche.


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