É ele mesmo o céu ou ele e o céu são entidades separadas? Existem, entre ele e o céu, limites que se possam traçar? Ou ele e o céu são um, compartilhantes? Eu o olho – e atrás dele está o céu. Olho o céu e ele aparece, de costas, como se navegasse, abertos os braços, aberto o peito, sobre o vagalhão. Não sei se devo – caso me dirija a ele – chamá-lo de “céu”. E nem sei se seria apropriado se referir ao céu como um “ele”. Pois se confundem, ele e o céu, mesclados, de modo que não sei onde começa a substância dele e onde começa o céu. Não sei se ele começa antes do céu ou se o céu começa nele, se é nele que devo procurar o céu, ou se é no céu que devo procurá-lo. É dentro dele que o céu se produz ou o céu existe sem ele? Sem que ele saiba, eu o fotografo. Sem que o céu saiba, ele permanece quieto, em atitude contemplativa. Desconfio que, se ele não existisse, não existiria céu. Ou que se o céu não existisse, ele não existiria. Mas posso estar enganado. No entanto, mesmo que eu me engane, ainda o tenho e tenho o céu. Nada sei do céu, nada sei dele. Mas os vejo, abarco-os mesmo sem compreendê-los. Eu os vejo – e sei que não posso explicá-los. Minha linguagem é muito rude. Só na fotografia reconheço que atingi alguma espécie de compreensão. Na imagem que captei cabem ele e o céu. A fotografia mostra que as palavras “ele” e céu” são inúteis, que nada ali corresponde a um “ele” e a um céu”. Pergunto a mim mesmo: “o que é o céu?, “o que é ele” – e não tenho a resposta. Mas a imagem me dá uma outra resposta, que não posso verbalizar.
Cities in dialogue: photos 1 and 3: São Paulo (Gabriela Canale); photos 2, 4 and text: Curitiba (Ygor Raduy).



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