Como somos nós, “humanos”, animais curiosos. Inventamos palavras tão grandes. Como são audaciosamente belas as palavras que inventamos! “Alma”, “liberdade”, “amor”, “felicidade”, “verdade” “essência”, “futuro”: somos tão artistas! O fato mais curioso é que, dos signos que inventamos, nem nós mesmos sabemos o significado. Mas estamos convictos que algo no mundo corresponda a eles. Não é terrivelmente, imensamente cômico? Se existe algo engraçado no mundo, deve ser isso. Acreditamos que o nosso falho e obtuso sistema de signos seja perfeitamente adequado para designar as coisas ao redor. Chegamos mesmo a encarar a linguagem como um reflexo do mundo, de modo que a cada elemento corresponda uma palavra. Nisso somos os mais ingênuos e pretensiosos dos animais – consideramos nossos simplorios esquemas de linguagem capazes de abarcar o turbilhão em contínuo devir que chamamos de “real”. (A platéia gargalha.)
Somos também artistas do esquecimento. Esquecemos do caráter fictício dos nossos artefatos. Achamos que as palavras que inventamos são chaves para a decifração do mundo. Uma pessoa fala em “liberdade” como se soubesse perfeitamente do que se trata. Basta uma pergunta como “o que você entende por liberdade?” para que ela se veja emaranhada em contradições e dificuldades. Agimos como um ator que se dedicasse tão profundamente a tornar verossímil seu personagem, nele concentrando todas as suas forças, que começasse a viver como ele e a crer nele, esquecendo-se da personalidade “original”. Somos generosos em matéria de “crer”. Cremos tão facilmente. Somos crentes natos. Geralmente, basta que algo esteja escrito para que seja aceito como verdadeiro e digno de crença. Quantas vezes não se ouve, durante um debate, como argumento de veracidade: “Mas estava escrito, eu li!” Por outro lado, somos débeis em matéria de dúvida. Aquele que duvida é sempre visto como “excêntrico” – riem dele, como se ri de um idiota, e basta um segundo olhar para descobrir nesse juízo um grão de desprezo.
Imagine a comicidade da situação. Alguém, num jantar formal, dirije-se a todos e gravemente observa: “Vocês não sabem o que dizem, nada no mundo corresponde às grandiosas palavras que vocês usam. No fim das contas, tudo o que vocês fazem é reproduzir palavras que se referem a conceitos herdados e enraizados, como papagaios, que falam apenas porque ouviram e aprenderam a imitar. Vocês não passam de autômatos, têm horror ao pensamento, porque pensar implica em reconhecer que as palavras que usam são meros sinais e que tais sinais só tem validade entre vocês mesmos.” Haveria incêndio e fúria nos corações, mas as aparências seriam preservadas. Os convivas apenas comentariam, entre gracejos: “Ele lê demais, não vive no mundo real.” Acreditam-se eles detentores e guardiões da “realidade”. Isso sem nunca haver considerado a hipótese de refletir sobre o que a palavra “realidade” significa. (A platéia se contorce de rir.)
No fundo, aquele que duvida é temido como um elemento prejudicial. Deve ser menosprezado e difamado, para que não contamine, com o vírus de sua dúvida, aqueles que ainda crêem. É como se dissessem, sem o saber: “Levamos milênios para construir nosso impecável edifício de linguagem e valores. Agora vem ele, esse pateta, com ares de sabe-tudo, querendo pôr nosso tesouro a perder. Riamos dele, e o deixemos de lado. Ele é um looser. É inofensivo para nós mas, em todo caso, evitemos que seja levado a sério.”
Cities in dialogue: video and text: Londrina (Ygor Raduy); image: São Paulo (Gabriela Canale); photo 1: Berlin (Ísis Fernandes).


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