Esses dias atrás ouvi uma história que achei muito curiosa. Contam por aí de uma menina que vivia sozinha embaixo da ponte. Segundo dizem, ela era feliz por lá, embora seja duvidoso que alguém consiga ser feliz em tais condições. A menina era uma artista nata, e fez para si mesma, com o lixo que encontrava na rua, dois sapatinhos rosa-pink de couro sintético, um primor de design, com as pontinhas viradas pra cima. Ela os adorava. Mesmo que não adorasse, teria que usá-los, pois não tinha outros. Pois bem. Foi um dia quando uma madame, indo à Daslu para uma comprinha básica, viu a menina pela janela do Audi e no mesmo instante disse: “Jarbas, pare o carro, please.” Não sei se a rica mulher compadeceu-se da menina ou apenas achou que ela daria uma boa faxineira. O caso é que recolheu a pobre e levou-a consigo para as compras. Durante o trajeto, a mulher, que tinha um gosto péssimo, comentou: “Que sapatos horrorosos, querida! Já já vou arranjar uns melhores pra você. É como eu sempre digo: uma mulher vale o preço dos sapatos que usa.” A ricaça falava sem parar. Era uma metralhadora de bobagens. A menina ia cochilando, aproveitando o frescor do ar-condicionado. Mal entendia o que a mulher falava. “Onde estão suas jóias, honey? Não sabe que os diamantes são os melhores amigos de um mulher? Já já arranjo umas jóias bem ricas pra você. Espere só.”
Na loja, a menina foi submetida a uma metamorfose. Foi vestida com roupas caríssimas e adornada com brincos, braceletes, anéis e colares ainda mais caros. Seria hipocrisia dizer que ela não gostou. Pelo contrário – ela a-do-rou. Se olhava no espelho e se achava parecida com a Bruna Lombardi. A única coisa que ela lamentou foi ter perdido os sapatinhos rosa-pink. Porém, segundo contam, ela viu numa das estantes da loja um par de sapatinhos parecidos com os seus. Ordenou à vendedora que os incluísse na compra. A madame criticou: “Mas darling, esses sapatos são cafonérrimos! Tem outros melhores. Veja esse Prada aqui que…” “Mas eu quero” – ela interrompeu, brusca. A mulher cedeu: “Tudo bem, leve essa coisa horrorosa, só não use na minha frente, sim?”
Depois desse dia, a menina passou a viver na casa da mulher. A vida lá era tão chata que a menina tinha saudade de seu barraco embaixo da ponte – embora seja duvidoso que alguém, tendo ascendido a uma posição social elevada, queira realmente voltar a ser pobre. Acontece que a mãe da madama era carola e obrigava a menina a acompanhá-la todos os dias à missa. Contam que era uma velha insuportável. Uma dia, a menina, de saco cheio, resolveu se vestir para a missa como se fosse para uma rave. Tomou uma dose de gim, pintou o cabelo de azul, abusou da make e completou o modelón com os sapatinhos rosa-pink. A velha nem percebeu, porque era quase cega. Mas quando chegaram na igreja, a comoção foi geral. “Como ousa se vestir desse modo na casa do Senhor?” – pensavam uns fiéis. “E esses sapatos? Parecem sapatos de mulher da vida” – pensavam outros, contorcendo-se com o próprio veneno. No banco de trás, comentavam em surdina: “É uma pecadora. Tenhamos piedade dela. Rezemos em favor de sua alma.” Isso e mais aquele monte de ladainha que não vale a pena ficar transcrevendo. Na menina, os fiéis diagnosticavam a influência direta do diabo. Isso porque nela viam vida, erotismo, movimento, gozo, alegria, intensidade – justamente tudo o que detestavam. Tinham, cá entre nós, uma ferrenha obsessão pela morte. Para eles, o corpo era um objeto sujo a ser martirizado, a dança era pecaminosa, o mundo era um vale de lágrimas, prazer era sinônimo de pecado e sexo selvagem equivalia a uma passagem só de ida pro inferno. Sem contar que, segundo tais indivíduos, pessoas que amam pessoas do mesmo sexo são fortes candidatos a passar a eternidade se divertindo entre tridentes e lagos de aço derretido. E por aí vai. Não vou desfiar esse novelo. Vocês já o conhecem. Eu, particularmente, aposto que as pessoas na igreja, sem o saber, morriam de inveja da menina, por isso a odiavam. No fundo, queriam se livrar da sedução da morte e aderir à vida, mesmo que essa adesão implicasse no risco do descontrole e da loucura. O risco de ser tomado pela vida e sair dançando por aí sem parada. Mas posso estar equivocado.
Pois bem. Contam que, quando percebeu que causava frisson, a menina começou a ir à missa sempre com modelos baforentos, se divertindo muito com os olhares atormentados à sua volta. Depois desencanou, foi fazer coisas mais interessantes, se matriculou num curso de fotografia, comprou uma câmera, transou com meninos e meninas, viajou pela Europa e pela Ásia, fez yoga, aprendeu alemão, sofreu por amor, experimentou drogas, conheceu gente inteligente e gente burra, leu Dostoievski, Sartre, Paulo Coelho, Nietzsche, Bandeira, ouviu Mahler, Lady Gaga, Beethoven, Miles Davis, Bach. O tempo passou, a velha morreu, a madame se viciou em botox e a menina – que agora era uma mulher – conseguiu uma bolsa para estudar Arte em Chicago.
Dizem por aí – não sei se é verdade – que as pessoas da paróquia que a menina freqüentou na adolescência nunca conseguiram domar seu ódio. Inventaram uma história escabrosa sobre ela, uma espécie de lenda urbana. Na cidade, começou a correr o boato de que a moça havia sido amaldiçoada por sua ousadia, que fora tomada por uma legião de demônios, que teve que se submeter a um exorcismo, que sobreviveu ao exorcismo, mas que logo depois uma doença misteriosa provocou gangrena em suas pernas, que ela sofreu dores lancinantes por meses, que chorou e pediu perdão a todos os anjos e santos, que suas pernas por fim tiveram que ser amputadas e que depois disso ela se tornou piedosa, benevolente e nunca mais pensou em ir à missa com traje inapropriado.
Foi isso o que me contaram. É ou não é uma história curiosa? Eu soube, inclusive, há uns dias, que a menina acabou se tornando uma artista muito respeitada no circuito internacional. Aliás, a lenda de horror que corre sobre ela acabou chegando a seus ouvidos. Ela então produziu, a partir do conteúdo bizarro da lenda, uma vídeo-instalação que rodou o mundo e provocou tensões até no Vaticano. Nos vídeos, ela mesma aparece dançando dentro de uma igreja, ora vestida de clubber, ora nua; ora com pernas, ora sem pernas. Em volta dela, um grupo de fiéis, que mais parecem zumbis, observa a dança e lança à dançarina olhares reprovadores. Se bem que ela parece nem se importar com isso, e segue dançando, a despeito de todo burburinho ao seu redor.
[Livremente inspirado em “Sapatinhos Vermelhos”, de Hans Christian Andersen, disponível aqui em português.]
Cities in dialogue: video: São Paulo (Gabriela Canale); text: Londrina (Ygor Raduy).
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