Era madrugada. Chovia. Duas, três ou quatro da manhã, não importa. Um rapaz andava sozinho, protegido pelo guarda-chuva. Era no centro da cidade. Quase nenhum carro passava. Numa avenida, qualquer avenida. Ele trazia o peito apertado, as meias úmidas. A chuva persistia. De longe, avistou um vulto humano na calçada. À medida que se aproximava, viu que era uma mulher, vestida com alguns farrapos. Diminuiu o passo. A mulher chorava, encostada no muro. “Uma mulher chorando na chuva” – ele pensou. Era um choro agudo. A mulher estava encharcada e o choro era tão sentido que ele próprio sentiu-se pronto para chorar. Mas passou pela mulher e seguiu em frente. “Ela deve ter frio. Fome. Dor.” Hesitou por um instante. O choro persistia, como a chuva. Iria abordar a mulher? Mas o que diria? E como a ajudaria, se nem a si mesmo era capaz de ajudar? Foi seguindo, a mulher em farrapos desapareceu na escuridão. A cidade era um fosso onde a mulher chorava.  Ele se lembrou das pessoas que riam demais, falavam em “felicidade”, “liberdade”, “compaixão”, “bondade”. Das pessoas que diziam saber a diferença entre “bem e “mal”. Das pessoas que gostavam de flores, passarinhos e afirmavam confiantes que o mundo era um lugar bom de se viver. Ele se lembrou dos adesivos colados nos carros que traziam a frase “Deus é fiel”. Conheceu o ódio. Ou era asco? Dentro dele, aflorava um líquido pegajoso. Chamava-se “vida”.

Cities in dilogue: photos 1 and 2: London (Luciana Franzolin), photos 3,4,5 and 6: Sao Paulo (Gabriela Canale); photo 7: Tijuana (Tabea Huth); photos 8, 9 and text: Londrina (Ygor Raduy).


Comentários

Respostas de 2 a “A Cidade Por Dentro.”

  1. isisfernandes

    incriveis as imagens de vcs, que cores, que riqueza, que dinâmica, que sensacoes elas expressam, que mundo elas nos oferecem! obrigada! beijos a vcs todos!

  2. isisfernandes

    ygor junto a essas imagens seu texto brilha também, com enorme forca!

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