Eu não quero ter consciência.
Eu não quero confirmar nada.
Eu não quero exercer nada.
Eu não quero escolher nada.
Eu não quero debater nada.
Eu não quero esperar nada.
Eu não quero prometer nada.
Eu não quero acreditar em nada.
Eu não quero refletir sobre nada.
Eu não quero compactuar com nada.
Eu não quero “ver pra crer” nada.
Eu não quero crer em nada.
Eu não quero me apegar a nada.
Eu não quero apostar em nada.
Eu não quero satisfazer nada.
Eu não quero me enganar com nada.
Eu não quero vender nada.
Eu não quero saber de nada.
Eu não quero prever nada.
Eu não quero contabilizar nada.
Eu não quero acompanhar nada.
Eu não quero assistir a nada.
Eu não quero me ligar em nada.
Eu não quero acordar pra nada.
Um questionário.
Olávio comparece à seção na hora marcada. Dia de responder o questionário. Ao chegar, apresenta-se ao responsável. É conduzido à saleta do investigador, cuja função é formular as perguntas. Na saleta, Olávio senta-se. O investigador aparece na porta. Parece preocupado.
– Bom dia. O senhor é Olávio Lavras?
– Sim, sou eu.
O homem instala-se na extremidade oposta à de Olávio. É jovem, os cabelos negros penteados para trás, untados com brilhantina. Começa a retirar papéis de um fichário.
– Pois bem. Comecemos o interrog, digo, o questionário.
– O senhor é casado?
– Não.
– Por que não?
– Porque prezo a minha liberdade.
– O que o senhor entende pela palavra “liberdade”?
Olávio hesita por alguns instantes. O investigador o mira com olhos vagos, como se pensasse em outra coisa.
– Bem, “liberdade”, segundo entendo, é o poder de escolher o que fazer e de que modo fazer. O poder de decidir para onde ir e de que modo ir – de ônibus, de bicicleta ou à pé. O poder decidir entre cor ou P&B, Carlton ou Marlboro, pagode ou Beethoven, whisky ou vodka, Deus ou Nietzsche, arroz ou caviar.
O investigador toma nota e prossegue:
– O senhor gosta de brigadeiro?
– Sim.
– Prepara com Nescau ou Toddy?
– Com Toddy. Odeio Nescau.
– Costuma comer brigadeiro frequentemente?
– Não. Só quando chove.
– Isso quer dizer que o senhor não está livre para comer brigadeiro quando quiser. Só pode fazê-lo caso chova. E isso por razões psíquicas que nem mesmo o senhor conhece. O senhor concorda que isso é uma falha na sua liberdade?
– Sim, concordo.
-Suponhamos que esteja chovendo e o senhor esteja comendo brigadeiro com muita vontade. De repente, pára de chover. O que o senhor faz?
– Paro de comer imediatamente, mas a contragosto.
– O senhor concorda que – tal como sugeriu Freud – a maioria, senão a totalidade dos seus atos, é resultado de um conjunto de razões que o senhor não conhece nem controla?
Olávio está confuso. O investigador está conduzindo tudo de modo a envergonhá-lo. Com dificuldade, ele assente:
– Sim.
– E isso não faz de noções como “livre-arbítrio” ou “liberdade” puras ficções?
Contrariado, Olávio balbucia:
-Sim, é verdade.
Pequena pausa. O investigador faz uma expressão grave.
– O senhor lê Nietzsche?
– Leio.
– O que o senhor entende pela palavra “Übermensch”?
– Trata-se de alguém capaz de criar valores.
– O que o senhor entende pela palavra “valor”?
Silêncio na saleta. Olávio não sabe o que responder. Os olhos do investigador agora o miram com vivo interesse.
– Bem, “valor”, digamos que…aliás, podemos dizer que, bem…
– O senhor não sabe o que significa a palavra “valor”?
– Sim, sei. Valor é norma, preceito, princípio. É isso! Valores são normas que guiam a ação humana!
– O senhor crê que existam valores absolutos?
– Sim. Não. Desculpe. Não, não acredito.
O investigador toma mais notas do que de costume. Parece nervoso. Seus olhos negros piscam repetidas vezes. Ele se volta para Olávio e indaga:
– O preceito “não matar outro ser humano em hipótese alguma exceto em legítima defesa” não lhe parece um valor absoluto?
– Não. Os incas praticavam sacrifícios humanos e isso era correto segundo seu código moral.
– O senhor mataria alguém por motivos fúteis?
– Talvez.
– Por favor, responda “sim” ou “não”.
– Sim, se me impedissem de usar ceroulas.
– O que o senhor espera?
– Não espero nada.
– O que significa a palavra “amor”?
– Não significa nada.
– Já assistiu “Coração Selvagem”, de David Lynch?
– Sim.
– Gostou?
– É dos melhores filmes que já vi na vida.
– O que achou da atuação de Nicholas Cage?
– Excepcional. O melhor papel dele.
– Muito bem. Questionário encerrado. O senhor pode ir.
-Muito obrigado, investigador.
– Não há de quê.

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