oito horas.

manhã. frio. asfalto brilha e escorre com a chuva intensa. a cidade se movimenta com preguiça. gotas que o limpador de pára-brisa limpa. nunca mais voltar pra casa. meu coração partiu-se. a madrugada me culpou de muitas coisas: as cervejas a mais, os olhares de soslaio, os cigarros que nunca fumei. talvezum cafécomleiteumpãocommanteiganachapa. pra aplacar corações partidos.uma padaria qualquer, um boteco qualquer. pra recomeçar. recomeçar? ou talvez destruir tudo de uma vez. uma bomba de nêutron. lembra? uma bomba de creme. e pá pá pá, pá pá pá. um doce de arder a língua. e o ipod que não tem mais nenhuma música que não ouvi. segue. forward. as botas encharcadas avançam pela cidade. não, não vou desistir. mais um bar. sábado com a luz fosca. dia cinza. um fernet. e me lembro da tulipa. nem mais importa a chuva. umidade que se aninhou nos ossos. cria musgos como crosta que envolve as veias.
verdevermelhoverdevemelhovredervlmhoerveedrevolhmomvrdveeelohmvvdm.

sábado.

talvez um porre.outro fernet. mudar a trilha sonora. brian eno. britânico demais. você não vai mais comer os biscoitos finos que eu fabrico. umas azeitonas pra começar a manhã. o bolinho de bacalhau no jaime. tudo foi o fato de um sim e de um não. e a fila do banheiro estava grande, né? duas horas e meia de espera? dois anos a mais para esperar por um frêmito no coração. romântico demais? então, por um frio na espinha em determinado momento da noite. nem um arrepio passageiro na espinha. um trisco que fosse. um ui. mas, duas horas e meia na fila do banheiro? duas dúzias de cerveja.ah, vá.e tudo se tornou ao meu redor mais dúbio e atraente que você. em câmera lenta. slow motion. travelling lento. filme noir. duas horas e meia , talvez três horas e meia, dirigindo as cenas. meticulosamente.você vem por ali e encontra com ele no canto sentado com um ar de introspecção. isso, joga o cabelo pra trás, seu cabelo loiro pra trás. senta ali e pede para ele acender o cigarro. ah, mas o brian ajudou, vai? altos toques. a música ajudou nas cenas. até o momento que não suportei mais. e ai estava dirigindo o carro pelo asfalto lavado pela chuva da manhã. lesmolisas? lesmolisas nos morrilvos. ali, lesmolisas? ah, me dá essa garrafa de fernet!

*notas incidentais: “Hino dos Corações Partidos F.C.” (Bruno Morais/José Ricardo Passeti/Tomás Meirelles), Brian Eno, Tulipa Ruiz, Oswald de Andrade, “Jaguadarte” (Lewis Carroll/tradução de Augusto de Campos)

<<REW

Despencam, do coração da noite, as tulipas em feixe,
despencam sobre ti, de um lado a outro, em rajadas a chuva,
as gotas de Fernet despencam, as cervejas em dúzias –
que no espaço de cômodos que a noite abre
a matéria do corpo executa um movimento curvo.

Como se de dentro das câmaras de chuva
fossem emergindo nêutrons, tulipas, cervejas;
como se no briho do asfalto sob a chuva
fosse possível  distinguir o contorno de um corpo.

(O musgo não despenca,
pois está bem aderido à rocha.

Já o corpo, objeto movente,
despenca em slow-motion.

Nele persiste a morte em latência
e a vida em exercício.)

Despencam pois, do coração da chuva, de um lado a outro,
pessoas dispostas em fila, petiscos de peixe, azulejos;
despencam em dúzias, ossos, azeitonas, cigarros,
despencas tu, por fim, tua azáfama, tua algaravia –
e eu mesmo despenco contigo, como corpo-cúmplice.

(Às 22:58 do sábado, o corpo persiste.
O boteco da esquina está aberto e eu nunca bebi Fernet.
Hora do experimento.)

Cities in dialogue: text 1: Londrina (Karen Debértolis); video: London (Luciana Franzolin); text 2 and info edition: Londrina (Ygor Raduy); photo 1 and text: Belo Horizonte (Gabriela Canale); photo 2: Londrina (Fernanda Magalhães).


Comentários

Uma resposta a “Ah, me dá essa garrafa de Fernet!”

  1. Eidglas

    nice, very very nice!

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