IMPRESSÕES DO RIO DE JANEIRO A Rua André Cavalcanti (antiga Silva Manuel) é uma rua situada na Lapa/Centro/sopé do morro de Santa Teresa no Rio de Janeiro. André Cavalcanti D’Albuquerque foi o primeiro “secretário de segurança” da cidade do Rio de Janeiro empossado pelo primeiro governo republicano. Deu muita paulada em capoeiristas. Depois, foi nomeado Ministro do Supremo Tribunal Federal, cargo no qual morreu. A André cruza com a Rua Riachuelo, antiga Rua Mata-Cavalos, tão citada por Machado de Assis, e onde morava a dona dos olhos de ressaca, a enigmática Capitu. Na André Cavalcanti, no final do século XIX, ficava a clínica do Dr. Mateus de Andrade, que com a ajuda do Dr. Andrade Pertence, amputou o pé do poeta romântico e abolicionista, o baiano Castro Alves (1847-1871), que havia se acidentado com uma espingarda quando em visita a São Paulo. A André Cavalcanti foi tradicionalmente reduto dos migrantes e famoso por seus cortiços. Atualmente a rua voltou a concentrar novas levas de pessoas que se fixam no Rio de Janeiro, notadamente angolanos, hospedados, quiçá, no Hotel Finisterra. Há presença de pontos de tráfico, noites de sábados com aposentados entoando marchas de carnaval sublimes, e mães levando seus filhos à escola municipal Orlando Vilas Boas, nosso famoso indigianista. Essa foto tirei de um casarão da Rua André Cavalcanti construído em 1875. O poema é registro da emoção que senti que tive ao morar nessa rua, causada por pessoas, situações, clima e arquitetura. Maurício Arruda Mendonça

Cheiro de creolina nos bueiros
um bebê se esgoela
calcanhares pesados nas soleiras
sopapos nos cortiços canibais
lotados de traficantes
Rua onde Castro Alves, tísico,
resistiu à amputação sem anestésico
imolou o pé ao majestoso samba
que escapa das janelas de sobrados seculares
danço comovido no calor da chuva de janeiro
no dia do padroeiro

e rio da dor de São Sebastião



Ali onde em 1869 Mateus de Andrade amputou o pé do poeta,
ninguém hoje sabe o que sentiu o poeta quando
a serra lhe penetrou o osso: não se sabe mais de sua dor.

E o sangue do poeta não se conservou.
E mesmo o pé do poeta foi em pó desfeito.

Onde em 1869 Castro Alves teve o pé amputado,
ninguém sabe mais qual foi a sensação do poeta
Ao ver o próprio pé do resto do corpo apartado –
E nem o olhar que ele lançou ao pé se registrou.

E mesmo o urro grave do poeta – logo que a serra
atingiu o primeiro nervo – só Mateus de Andrade ouviu.

E Mateus de Andrade está morto.
E Castro Alves está morto.
E o pé amputado de Castro Alves foi consumido pela terra.
Assim como os olhos de Castro Alves foram consumidos.

E o sexo do poeta está perdido,
e o coração do poeta dissolveu-se,
e  as mãos do poeta foram calcinadas,
e  o peito do poeta cedeu à voracidade
e  abriu-se, no escuro, como um fruto seco.

As pessoas que vivem ou que passeiam pelos arredores
da  rua onde em 1869 Castro Alves teve o pé amputado
não sabem que o rosto do poeta estava lívido no momento
em que a serra atingiu o interior gelatinoso do osso.

E os olhos estavam grandes e atentos.

Pois ali, naquele instante, sob o olhar do enfermeiro,
Castro Alves sentiu, na parte mais macia da carne do coração,
o farfalhar que morte faz quando se avizinha do corpo.

Mas hoje tudo se perdeu.
E até  o bem-te-vi que anunciou orgulhoso seu canto
no justo  instante em que a serra enfim terminava seu labor
foi diluído pelas engrenagens da máquina.

Hoje, um outro poeta recorda o martírio –
como se a ele coubesse a tarefa de
rematar aquilo que o tempo já havia
Fundido e desmembrado em suas teias.

Em 1869, sobre a mesa de Mateus de Andrade,
no sopé do morro de Santa Tereza,
na cidade do Rio de Janeiro,
o pé de Castro Alves pousou, ainda quente.

O poeta, exaurido, mergulhou em sono intranqüilo
E sonhou com serras, mares e sangue gotejado.

Cities in dialogue: Photo 1 and poem: Rio de Janeiro (Maurício de Arruda Mendonça); photo 3: Sao Paulo (Gabriela Canale);  photos 3 and 4: Tijuana (Tabea Huth); poem 2: Londrina (Ygor Raduy); photo collage: London (Luciana Franzolin); photo 2 and 5: Berlin (Ísis Fernandes).


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