
Cheiro de creolina nos bueiros
um bebê se esgoela
calcanhares pesados nas soleiras
sopapos nos cortiços canibais
lotados de traficantes
Rua onde Castro Alves, tísico,
resistiu à amputação sem anestésico
imolou o pé ao majestoso samba
que escapa das janelas de sobrados seculares
danço comovido no calor da chuva de janeiro
no dia do padroeiro
e rio da dor de São Sebastião
Ali onde em 1869 Mateus de Andrade amputou o pé do poeta,
ninguém hoje sabe o que sentiu o poeta quando
a serra lhe penetrou o osso: não se sabe mais de sua dor.
E o sangue do poeta não se conservou.
E mesmo o pé do poeta foi em pó desfeito.
Onde em 1869 Castro Alves teve o pé amputado,
ninguém sabe mais qual foi a sensação do poeta
Ao ver o próprio pé do resto do corpo apartado –
E nem o olhar que ele lançou ao pé se registrou.
E mesmo o urro grave do poeta – logo que a serra
atingiu o primeiro nervo – só Mateus de Andrade ouviu.
E Mateus de Andrade está morto.
E Castro Alves está morto.
E o pé amputado de Castro Alves foi consumido pela terra.
Assim como os olhos de Castro Alves foram consumidos.
E o sexo do poeta está perdido,
e o coração do poeta dissolveu-se,
e as mãos do poeta foram calcinadas,
e o peito do poeta cedeu à voracidade
e abriu-se, no escuro, como um fruto seco.
As pessoas que vivem ou que passeiam pelos arredores
da rua onde em 1869 Castro Alves teve o pé amputado
não sabem que o rosto do poeta estava lívido no momento
em que a serra atingiu o interior gelatinoso do osso.
E os olhos estavam grandes e atentos.
Pois ali, naquele instante, sob o olhar do enfermeiro,
Castro Alves sentiu, na parte mais macia da carne do coração,
o farfalhar que morte faz quando se avizinha do corpo.
Mas hoje tudo se perdeu.
E até o bem-te-vi que anunciou orgulhoso seu canto
no justo instante em que a serra enfim terminava seu labor
foi diluído pelas engrenagens da máquina.
Hoje, um outro poeta recorda o martírio –
como se a ele coubesse a tarefa de
rematar aquilo que o tempo já havia
Fundido e desmembrado em suas teias.
Em 1869, sobre a mesa de Mateus de Andrade,
no sopé do morro de Santa Tereza,
na cidade do Rio de Janeiro,
o pé de Castro Alves pousou, ainda quente.
O poeta, exaurido, mergulhou em sono intranqüilo
E sonhou com serras, mares e sangue gotejado.






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