NOITE na Cidade: Eindrücke aus Licht und Schatten

Não falo de ti, mas de noite onde estás contido. Não me refiro a ti quando digo o teu nome: me refiro à noite, aos véus que sobre a tua face, aos mantos que sobre o partido coração descaem – já não falo de ti, mas da tua ausência e sombra. Pois és aquele que caminhas quando já não arde o sol. Por isso não falo de ti, falo da noite onde transitas, dos cordões de treva. Não de ti, mas da madrugada espessa; não de ti, mas da hora morta; não de ti, mas do fogo arredio dos teus olhos.

Com a noite, foi possível que um flanco teu aparecesse; com a noite, fomentaste a audácia; com a noite, registrei a curvatura do teu peito; com a noite, madrinha dos teus flancos – pois de ti não, mas da noite onde te ocultas. Mas não de ti, já que na noite onde agoniza o teu corpo agoniza também o meu corpo, fiel ao teu, o corpo-cúmplice – pois na noite onde aparece o teu corpo, pequeno animal, aparece ainda a minha face, ao lado da tua, a face-cúmplice.

Em teu louvor, entôo um cântico truncado. A noite sabe, e aceita. Quando me aproximo de ti, a noite arde, o baixo-ventre acende a fornalha, os teus olhos negros ardem mais, a noite incendiada é o baixo-ventre, teus pés, teu peito, teus olhos negros como duas cápsulas – a noite arma a estrutura do incêndio. Pois não é a ti que endereço essa ode blasfema, mas à noite, rainha, majestade, os laços bem jungidos, às trevas.

Artistas em diálogo / Cidades em diálogo: foto 0 de Gabriela Canale (São Paulo), foto 1, 2 e 3 de Ísis Fernandes (Berlin); texto e video de Ygor Raduy (Londrina).


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