A grande madrugada, quando são quatro e quarenta da manhã num apartamento na cidade, Bach pode tocar e alongar-se, a madrugada é larga, pois veja, a madrugada, a cidade, elas são irmãs, ouvem Bach na cidade, são comparsas, o incêndio é vasto. A lua desce de altas torres, a cidade contemplada. Uma noite de maio às quatro e quarenta e cinco da manhã, tuas mãos ainda estão aqui, a madrugada é campeira, extensa, corada de esmaltes, cordata. Estar no apartamento da cidade, quando as Suítes Francesas podem derramar-se – pois a noite é rainha, a cidade é seu alto continente. Veja-se, às altas horas, é possível conhecer a madrugada, seus anéis de majestade, seus pináculos. A grande madrugada, cariátide, forrada de faróis, tão operosa, tão longa. E são quatro e cinqüenta no estúdio, posso rever-te, ainda estão aqui teus pés e o odor dos teus braços, vinhas que sobre a madrugada descem, líquen que sobre a madrugada cresce. No hino à madrugada cabem as artérias, as supra-renais, as amídalas, ela é videira quando Bach na madrugada fala, alta escuridão, altas rajadas. São cinco horas, acende-se um cigarro, a cidade está deserta.
A vastidão que encobre as ruas foi expulsa do quarto por nós dois. Fomos. Nunca ouvimos Bach juntos, jamais o ouviremos. Somos os seres das carnes que se entornam. Suas mãos estão ainda aqui, sobre o parapeito da janela, onde se apagou o cigarro azul. A cidade inteira viu atenta, ignóbil, nossas fumaças. Quase fomos expulsos. Atravessamos seus rios poluídos, transgredimos sua pretensa ordem. Todos nos ouviram. Nossos ruídos ainda estão pelas avenidas. Nossos contrastes se aquietam. E nas Variações Goldberg nossos sons são os gemidos suaves de Glenn Gould – deus que a tudo abençoa, em magia humana.
Artistas|cidades em diálogo: vídeo 1 e texto 1 de Ygor Raduy (Londrina); foto de Ísis Fernandes (Berlim); vídeo 2 e texto 2 de Gabriela Canale (São Paulo).
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