Em uma rua da cidade giram cores,

cintilam luzes rosas-esverdeadas, uvas-rubis.

Nas cidades rodopiam rodas, correm asfaltos.

Das distâncias entre nós resta o sentimento “parallax”,

qualquer efeito caleidoscópico:

transformando, misturando, alterando-nos.

No caminho deixamos de ser o que outrora foramos

e desprendemo-nos, feito frutas maduras dos cachos,

sem cuidado de estatelar no chão duro

ou de arrebentarmos, suculentos, entre dentes famigerados.

Ficamos agora atentos ao que do lado de lá ocorre,

cautelosos, tateamos a noite protegidos pelas lentes.

A queda é calculada, mas nunca precisa.

Miramos os pontos, diafragmas, palavras.

Miramos a rua desolada que Pessoa cantou há um século ou mais.

E a cidade hoje é tão outra, tão mais dentro do vórtice que controla a árvore da qual caímos.

Das nossas janelas não se vê tabacaria, ou tabuleta ou chocolates endereçados a uma pequena.

Vê-se o compromisso com o tempo (que nunca abunda),
vê-se mais o compromisso do que qualquer nuvem, ou Esteves.

E nesta noite, nestas cidades, o compromisso é colorido pelo contraste silente.

Ausentes.

artistas e cidades em diálogo: foto 2 e texto de Ísis Fernandes (Berlim), foto 1 e texto de Gabriela Canale (São Paulo).


Comentários

Deixe um comentário