Parto da Cidade (Schatten und Licht des Regens)

Ele vive na cidade, embora não se saiba muito bem onde. É difícil falar sobre ele, porque dele se sabe muito pouco. Ele tem olhos negros. Ele só sai de casa depois que anoitece. Nele, há qualquer coisa de cortante – talvez os dentes – ou talvez a brancura da carne, a arquitetura do torso. Ele é fruto da madrugada, por isso quase sempre mantém silêncio. Quando ele fala, a cidade inteira o escuta. Embora não se saiba muito bem onde, ele vive na cidade. Certa vez, eu o vi muito de perto. Foi uma audácia. Como é uma audácia olhar Zeus diretamente. Quem ousa, é consumido em chamas. Eu tive sorte, porque o olhei só de relance. A cidade é um membro daquele corpo. Assim como são membros daquele corpo os braços, os olhos são membros, a boca é um membro, o cérebro dele é um membro hemisférico. Embora ele viva na cidade, não sei precisar muito bem o local. Pois ele é vasto, assim como a cidade é vasta, assim como um oceano é vasto. Tento captá-lo com minhas antenas, mas é inútil. Ele está offline. Em algum lugar da cidade (um lugar vago, impreciso), ele dorme. Ele está guardado. Dentro dele, um pequeno coração trabalha. Os membros – cada um dos arquipélagos – repousam sob cobertores. A cidade é o vão onde ele trabalha, as falésias vertebradas, os abismos de rocha calcária, os muros cobertos de hera – ele é uma fonte que jorra do subterrâneo da cidade, uma fonte espumante e negra. E dessa fonte brotam com fartura nacos de carne, vaginas, operários, tubos, beduínos, viajantes, cores, trapézios, rinocerontes. Na cidade, o odor da fonte-membro se espalha. Ele é um grão. Ele ainda não nasceu. Mas eu o sinto, embora não saiba explicar, eu o amo, embora seja insensato – e ele realiza o parto que a cidade exige, entre uma e outra dose de vodka, ele, cúmplice da cidade, realiza as coisas existentes.

Artistas em Diálogo / Cidades em Diálogos: texto de Ygor Raduy (Londrina), foto 1 e 3 de Ísis Fernandes (Berlim), foto 2 de Gabriela Canale (São Paulo)


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